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Luiz Carlos Merten

19 Setembro 2009 | 18h10

Lá vamos nós de ‘Salve Geral’ no Oscar. O filme de Sergio Rezende estreia dia 2. Acho que vai dar o que falar, principalmente para quem acha que bandido bom é bandido morto. Rezende não reza por essa cartilha e até se arrisca a ser linchado. Seu filme não é pró-PCC, mas não exagero ao dizer que sua formatação, no limite, deixa o público, ou me deixou, mais simpático a alguns dos criminosos em cena (o Professor, o personagem de Eucyr de Souza, ator do Belmonte e o novo gênio da interpretação do cinema brasileiro – o cara é fera!) do que à canalha dos políticos, policiais e diretores de instituições carcerárias. No filme, toda essa gente brinca de poder, mas poder quem tem é o personagem de Eucyr, sentado na sua pose de Buda, depois de haver parado São Paulo. ‘Salve Geral’ não é sobre o PCC e o dia em que São Paulo parou é só o contexto. A história é de uma mãe (Andréa) que tenta salvar o filho da cadeia, como outra mãe, no filme anterior de Rezende – ‘Zuzu Angel’, Patricia Pillar -, lutava pelo direito de enterrar o filho morto pelos militares. Em ‘Lamarca’, o diretor já desagradara à velha ‘direita’ por seu enfoque do militar que abandonou a caserna para virar guerrilheiro. Há agora uma frase muito legal no diálogo, quando Andréa Beltrão diz que, desde criança, nunca aguentou ver a violência. Ela sempre fechou os olhos. É o que faz o brasileiro em geral. ‘Salve Geral’ escancara os olhos da gente. O filme tem uma direção de cena segura, e forte. Conversei com Sérgio Rezende sobre isso. Ele diz que, nos filmes anteriores, procurava controlar tudo, os atores como a imagem. Planejava uma cena e o ator tinha de se encaixar nela. Aqui, ele deixou os atores mais flexíveis e construiu as cenas – os planos – a partir deles. Deu certo! Até por ser a história de uma mãe e seu filho, ‘Salve Geral’ se constrói nessa perspectiva feminina, senão feminista. Há uma protagonista, Andréa, e uma antagonista, a Ruiva, advogada do crime, Denise Weinberg, e é justamente esse antagonismo o álibi de Sérgio Rezende quando diz que seu filme não é pró- criminosos. Voltando ao começo, vamos de novo de violência no Oscar, depois de ‘Cidade de Deus’, ‘Ônibus 174’ – ‘Tropa de Elite’ foi indicado para concorrer? Não lembro… Rezende está otimnista ou, pelo menos, ele diz que não é botafoguense, que já entra em campo conformado de que vai perder. A pergunta que não quer calar, e me fez o entrevistador do SBT – ‘Salve Geral’ vai para ‘as cabeças’? Acho que o público, lá como aqui, deve ver o filme pelo seu eixo correto. A mãe e não o crime, assim como era a mãe e não os militares em ‘Zuzu Angel’. E isso é só a história, o fundo. O tema de ‘Salve Geral’ é o descontrole – social e individual. A sociedade perdeu seu centro, mas os personagens, individualmente, tambem estão fora de controle. Andréa não controla sua emoção, seu desejo, e se envolve com o Professor, uma liderança histórica que está sendo superada no PCC. Seu filho não controla o carro no racha, provoca um acidente com morte e vai preso. Mãe e filho têm um diálogo maravilhoso na cadeia. O garoto diz que a vida dele foi destruída em 15 segundos. Andréa acrescenta – não é a frase exata – ‘Sabe o que é, meu filho, a vida da moça também foi destruída e ela morreu.’ O jeito como Andréa diz isso… É uma atriz maravilhosa, no teatro, cinema e televisão. Aguardem o ‘Salve Geral’.