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Luiz Carlos Merten

21 Fevereiro 2008 | 16h05

Saymon descobriu o mapa da mina, sobre como (re)ver ‘Vagas Estrelas da Ursa’, de Luchino Visconti. Moacir lamenta que o filme tenha sumido. E sumiu mesmo, numa disputa pelo espólio do produtor Franco Cristaldi que parece coisa de subdesenvolvido. Nunca fiz segredo para ninguém que ‘Rocco’ é meu Visconti do coração, mas existem três que acho geniais. Um é ‘O Leopardo’, outro é ‘Violência e Paixão’ e o terceiro é justamente o ‘Vagas Estrelas’, que tem o título internacional de ‘Sandra’, como a personagem de Claudia Cardinale. Conta a lenda que Visconti, depois de ofertar dois papéis à Cardinale (em ‘Rocco’ e ‘O Leopardo’), teria dito que ia criar para ela uma personagem inesquecível. ‘Vagas Estrelas’, ou ‘Sandra’, é a Electra de Visconti, que transpõe a tragédia grega para o quadro de uma Europa assombrada pela culpa do nazismo. Sandra tenta vingar a morte do pai, um intelectual judeu, que ela credita à mãe – e a Clitemnestra de Visconti é interpretada por Marie Bell, que tem sua grande cena na hora da histeria ao piano (o tema do filme é fornecido por César Franck, ‘Prelúdio, Coral e Fuga’). Talvez porque achasse que a vingança, por si só, não seria um tema suficiente numa tragédia contemporânea, Visconti somou-lhe também o incesto. Sandra, no filme, volta a Volterra, cidade etrusca que está sendo devorada pela erosão – metáfora da aristocracia, à qual pertencem os personagens -, e reencontra o irmão, de quem foi amante, com a cumplicidade de Fosca, a velha aia. Visconti, em ‘Vagas Estrelas’ – o título vem do poema de Leopardi e foi sugerido ao grande artista pelo também diretor Mario Soldati -, leva o uso da lente zoom ao seu esplendor. O filme de 1965 é em preto-e-branco, com uma fotografia gloriosa de Armando Nannuzzi. Existem cenas que a gente não esquece. Sandra, no jardim da família, diante da estátua do pai, descoberta por um golpe de vento (e ela faz aquela expressão de espanto); a zoom em direção à imagem invertida do irmão, projetada na água da cisterna (e todo o conceito de ‘Vagas Estrelas’ está nesta única imagem); a longa noite que Sandra (Claudia), o irmão (Jean Sorel) e o marido dela (Michael Craig) passam em claro, cada um agarrado ao seu travesseiro e todos unidos pela voz de quem mesmo…? Ornella Vanoni? É ela, não, cantando ‘La Mia Solitudine Sei Tù’. Deus, que aquele filme é lindo! Visconti ganhou com ele o Leão de Ouro em Veneza. Cinco anos antes, sei lá que júri de malucos lhe havia dado somente um prêmio especial por ‘Rocco’, atribuindo o Leão a ‘A Passagem do Reno’, de André Cayatte. Sei que, no Brasil, a Versátil procura pelos direitos há anos. Vejam que é tão difícil encontrar uma versão decente de ‘Vagas Estrelas’ que aquela empresa que vocês sabem qual é nunca lançou o DVD pirata! Mistura de drama e melodrama, de verismo e estetismo, Sófocles filtrado por Freud, ‘Vagas Estrelas’ é um daqueles filmes raros que, como ‘Rebelião’, de Kobayashi; ‘O Mensageiro do Diabo’, de Charles Laughton; e ‘Morangos Silvestres’, de Bergman, carrego sempre comigo. Todos são em P&B. Não era Truffaut quem dizia que o grande cinema tinha de ser em P&B? Que a banalização da cor levaria à mediocridade visual? O próprio Truffaut fez, em preto-e-branco, seus mais belos filmes – ‘Os Incompreendidos’, ‘Jules e Jim’ e ‘O Garoto Selvagem’, meu favorito. Mas eu já estou me distanciando demais de Visconti e de ‘Vagas Estrelas’. Não sou do tipo que vai pesquisar na internet para vê-lo, mas só o fato de saber que o filme existe, de novo, me deixa feliz. Mais dia menos dia vamos vê-lo nos cinemas, em cópia nova, ou em DVD. Tomara!