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Luiz Carlos Merten

25 Julho 2008 | 13h46

Fui ver uma exposição sobre Grace Kelly em Paris. Vestidos, jóias, objetos pessoais. Imagino que o povo que trabalha com moda e design talvez se matasse para ver aquelas coisas. O que gostei foi da parte da correspondência de Grace. Suas cartas para Greta Garbo, Frank Sinatra, Cary Grant, Marc Chagall. O pintor acrescenta um desenho à sua carta, uma daquelas suas figuras esvoaçantes. E o texto é lindo. Ele agradece o carinho que recebeu de Grace em Mônaco e diz que ela fez com que se sentisse em casa. Adorei uma carta, datada de 1962, para Alfred Hitchcock. Grace se desculpa e cita suas ‘obrigações’ para dizer que não poderá fazer o próximo filme (presumo que ‘Marnie’, embora o título não seja citado). Já imaginaram o golpe de marketing do mestre do suspernse? A princesa de Mônaco no papel de uma ladra frígida que rouba para satisfazer sua necessidade irrealizada de sexo? Grace era uma mulher humorada. Sua carta é uma pequena obra-prima e, para mim, pelo menos, reveladora (sobre ela e o diretor). Diz que adoraria voltar ao ‘curral’ de Hitchcock, numa referência ao que ele dizia sobre os atores de seus filmes (que eram ‘gado’). Grace lembra o convívio feliz nos filmes que fizeram juntos, faz algumas referências a ‘Ladrão de Casaca’, que devia ter um peso especial para ela porque, afinal, foi durante a filmagem que, na Côte d’Azur, conheceu o príncipe Rainier. A carta é redigida a máquina, mas o texto parece tão pessoal que dificilmente alguém escreveria aquilo, simplesmente para ela assinar. Grace lamenta, mas sabe que outra vai substituí-la no curral – foi Tippi Hedren -, e termina pedindo que Hitchcock não se esqueça dela e a considere sempre uma de suas ‘sacred cows’ (o sagrado aqui é mais no sentido de ‘devoção’, a vaca é mais devotada do que sagrada). A resposta de Hitchcock é redigida do próprio punho. Um texto afetivo. Ele diz que sabe que ela tomou a melhor decisão, mas também gostaria de retomar o convívio. Hélas… No P.S., Hitchcock manda o recadinho de Alma, sua mulher, com recomendações caseiras para a princesa de Mônaco. Hitchcock e Alma viraram sinônimos de suspense, crimes violentos etc. Essa simples troca de correspondência, tão terna, me pareceu tão inusitada que parei um tempão olhando aquelas assinaturas.

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