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Luiz Carlos Merten

05 Maio 2009 | 18h55

ROMA – Voltei ontem do Vaticano, tentei ler um pouco no quarto do hotel, o Exedra, na Piazza della Repubblica, mas já tive de correr para o Parco della Musica, onde ocorreu à noite a pré-estréia mundial de ‘Anjos e Demônios’, com direito a tapete vermelho, pelo qual desfilaram Tom Hanks, Ewan McGregor, Ayelet Zurer, Pierfrancesco Favino e Nikolaj Lie Kaas, todos atores do segundo filme da série que Ron Howard vem adaptando dos best sellers de Dan Brown. O terceiro livro, ‘The Lost Symbol’, será lançado em setembro e o próprio Brown disse aqui que se trata do mais cinematográfico dos três, com sua história que se passa durante 12 horas e dará, palavras dele, ‘a terrific movie’ de Howard. Sei que vocês não tem muito apreço por ele, nem por Edward Zwick, mas tenho meu fraco por esses diretores, ‘falsos’ autores. Gosto de ‘O Último Samurai’, é verdade que por causa de Ken Takakura, e nunca me esqueço de que Ron Howard, menino, foi ator de Minnelli (‘Papai Precisa Casar’) e, pouco mais que um adolescente, integrou o elenco do western mítico ‘O Último Pistoleiro’, de Don Siegel, com John Wayne e James Stewart. Vi-o crescer na tela, como ator, antes que ele se tornasse diretor de prestígio, vencedor do Oscar e tudo. Achei ‘Anjos e Demônios’ melhor do que ‘O Código da Vinci’, mesmo que isso não represente grande coisa (mas eu acho que, no ‘Código’, Ron Howard dá uma pequena lição de cinema narrativo, naquele flash-back que conta, de maneira suscinta, a história do assassino albino da Opus Dei). Howard recebeu muitas pancadas pelo ‘Código’, mas ontem ele nos disse, aos jornalistas brasileiros, todos reunidos, que não mudaria nada, se tivesse de refazer o filme. Além dessa simpatia por ele, como pessoa, gosto (muito) de um de seus filmes, curiosamente, seu maior fracasso, o western ‘Procuradas’, com Cate Blanchett e Tommy Lee Jones, que tem ecos de Anthony Mann (‘O Preço de Um Homem’) e Sam Peckinpah (‘Juramento de Vingança’). Apesar de todas as junkets a que já fui, não tenho muita experiência de tapete vermelho. No de ontem, foi impossível falar com Dan Brown e Tom Hanks, mas, além do diretor, nosso grupo conversou com a bela Ayelet e com os atores dinamarqueses da produção. Um deles, Nikolaj, que já trabalhou com Lars Von Trier (‘Os Idiotas’), faz o assassino que mata cardeais, presumivelmente para os ‘illuminatti’. No livro, o assassino é árabe, mas Ron Howard e seus roteiristas David Koepp e Akiva Goldsmann mudaram sua nacionalidade. Diz o ator que Howard nunca conversou com ele sobre isso, mas é possível que ele estivesse querendo fugir à polarização política e às acusações de discriminação anti-árabe, no espírito do pós-11 de Setembro. Após o tapete vermelho, terminamos a noite no hotel, numa mesa que incluía jornalistas portugueses. Trocamos figurinhas, inclusive sobre Cannes e eu soube que o novo filme de João Pedro Rodrigues que está indo para a mostra Un Certain Regard promete ser uma das sensações do festival. Rodrigues dirigiu ‘O Fantasma’ e ‘Odete’, dois filmes que abordam o imaginário gay. O terceiro, cujo título não lembro, é mais punk, sobre travestis. Vamos ter uma provocação portuguesa, com certeza, na Croisette. Só para encerrar o tapete vermelho, passou uma senhora, enrugada mas enxutona de corpo. no outro lado de onde estávamos. Achei-a conhecida, mas foi muito rápido. No jantar, o jornalista português, o Rui, matou a charada. Era Ursula Andress. Ursula quem? Andress, a bondgirl de ‘O Satânico Dr. No’, a gatinha de ‘O Que É Que Há?’ (com Peter O’Toole e Peter Sellers). Ursula foi mito sexual na minha juventude, um ícone dos anos 60. Deve estar com o quê? 70 e tantos? Ursula não se espichou toda, não se ‘botoxizou’ (não sei se o verbo existe). Estou escrevendo e me lembrando dela, saindo da água do Caribe com aquele biquíni e aquela adaga na cintura. A imagem marcou tanto que foi recrtiada por Halle Berry, quando foi bondgirl. E até Daniel Craig criou o equivalente masculino, com aquela sunguinha em ‘Cassino Royale’.

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