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Luiz Carlos Merten

15 Fevereiro 2011 | 16h44

BERLIM – E no sexto dia chegou o vencedor do Urso de Ouro. Sei que me arrisco dizendo uma coisa dessas, mas, face ao que já vimos até aqui e o que está sendo prometido até sexta, quando se encerra a competição – o anúncio dos vitoriosos será no sábado à noite -, o júri presidido por Isabelle Rossellini poderá outorgar prêmios importantes para Bela Tarr e Ulrich Kohler, mas o ouro terá de ir para o iraniano Asghar Faradi. Ele dirigiu Procurando Elly, que já recebeu o Urso de Prata há dois anos. O novo filme é muitíssimo melhort. Nader e Nissim, Uma Separação é muito mais do que simplesmente a narrativa do priocesso de separação de um casal. Na abertura do filme, ambos estão diante do juiz, que os interpela sobre o processo sde divórcio que instauraram. Ela quer ir embora do Irã, ele não pode acompanhá-la porque se sente responsável pelo pai, que sofre de Alzheimer. Duas horas depois, ambos voltam diante do juiz, mas o filme termina em aberto  – com quem vai ficar a filha do casal. A garota é uma personagem chave, mas existe outra menina, a filha da muilher que o pai contrata para c uidar do avô. Ela é religiosa e, de cara, disca para um serviço de atendimento religioso. O doente mijou nas calças, ela poderá limpá-lo sem estar cometendo um pecado?  Há um momento muito intenso em que as duas garotas trocam um olhar. O filme inteuiro cabe nessa cena. Ambos são presas no jogo de autoritarismo que rege as relações sociais. O Irã é uma sociedade patriarcal, e religiosa. O tempo todo as personagens estão invocando o Corão e o Profeta, Alá.  O pai é acusado do acidente que pode ter provocado o aborto da doméstica. Pode ; porque na verdade as coisas  não são o que parecem, ou são um pouco mais c omplexas. Faradi constroi seu filme sobre um terreno movediço. A ética está constantemente em discussão. A lei dosd homens ou a de Deus? É sempre arriscsado querer antecipar os movimentos de um júri, mas Asghar Faradi fez, até agora, “o” filme desse festival. Na coletiva, ele foi solicitado a comentar a prisão de Jafar Panahi no Irã. Disse que, para todo o mundo que faz campsanha pelo autopr de O Círculo, sua prisão  provoca um movimento de rwepúdio ao governo iraniano, de luta por free speech, liberdade de expressão. Mas para ele é mais, pois Panahi é seu amigo, como se fosse um irmão. A estrutura circular de Uma Separação remete a O Círculo. Faradi, como Panahi, discuter a condição da mulher numa sociedade controlada pelos homens. É um belíssimo filme. Ganhará o Urso de Ouro? Se o júri fizer a coisa certa, pelo menos entre o que se viu até o sexto dia, com certeza sim. Meu dia hoje foi intenso. O filme de Faradi pela manhã, o de Miranda July (The Future, um tanto decepcionante) na sessão do meio-dia, depois as entrevistas, incluindo a de Wim Wenders sobre Pina e o álbum de fotos editado pela Inmprensa Oficial de São Paulo. Só agora estou conseguindo postar alguma coisa. Daqui a pouco, tem mais um filme da competição, o corerano. Como todo ano, Berlim custa um pouco para engrenar, mas quando isso ocorre os bons filmes se sucedem. Havia gostado de Sleeping Sickness, do alemão Kohler. Respeito o Bela Tarr de ontem, O Cavalo, na verdade uma égua, de Turim, mas a admiração é um tanto fria. O filme me provoca admiração, mas não consigo gostar. O iraniano, sim, faz a diferença. Não sei bse essas reflexões, ou digressões, sobre va Berlinale interessam a vocês. Desde que o meu assunto passou a ser a compertição de Berlim, vocês se ausentaram dos comentários. Existem questões pendentes, comentários que foram feitos e aos quais ainda não respondi. Por exemplo, Inácio Araújo, segundo os comentários, caiu matando nas comédias que estão arrebentando nas bilheterias. Não é, realmente, o tipo de filme que agrada aos críticos, mas sempre me lembro das chanxchadas da Atlântida. Os críticos se envergonhavam daquelas paródias, m,as, com o tempo, elas não apensas ganharam respeitabilidade como são vistas hoje como ferramentas para se entender o Brasil dos anos 1950. Não duvido que, daqui a não sei quantos anos, esse cinema comercializado, de verão, também possa ser visto como um redflexo muito mais forte do País, um espelho, do que muitos filmes de arte. O filme de arte por excelência dessa Berlinale, por sua maneira de trabalhar o tempo, está sendo o de Bela Tarr,  mas prefiro muito mais a urgência de Asghar Faradi. Misturo as coisas, como sempre. Onde estão vocês?

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