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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2010 | 08h36

PARIS – Estou no quarto do hotel, redigindo esses posts, no Word. Para acessar a internet, que não funciona no quarto, tenho de baixar ao lobby, o que só vou fazer amanhã. Vocês vão ler com atraso, portanto. Estou voltando do teatro, onde acabo de assistir, no Odéon – Théâtre de l’Europe, a ‘Um Tramway’. Um bonde chamado desejo, Uma Rua Chamada Pecado, como se chamou, no Brasil, a adaptação de Elia Kazan para a peça de Tennessee Williams. A versão francesa é mise em scène por Krszystof Warlikowkski, com Isabelle Huppert no papel de Blanche DuBois e Andrzej Chira como Kowalski. Warlikowski virou a sensação do Festival de Avignon sei lá com que peça. É o novo gênio, ou pelo menos enfant terrible, do teatro francês. Não sei se gostei do espetáculo, mas gostei de tê-lo visto. ‘Le Figaro’ achou insuportável e a maioria da crítica está batendo no diretor, cujas ousadias vanguardísticas são mesmo excessivas. A montagem dura 2h45. Boa parte passa-se dentro de uma armação de vidro – um zoo de cristal? -, que fica avançando e recuando no palco, cujo formato geral é o de um ‘bowling’, boliche. Warlikowski já começa com Blanche louca, no hospício. Ele usa muita música – há uma cantora que canta música inteiras, ‘Common People’, ‘All by Myself’, ‘Follow Me’ etc -, vale-se de muito nu (masculino e feminino), incorpora o vídeo (e usa telões gigantescos na própria estrutura de vidro). O resultado é irregular, com muita coisa que pode realmente ser insuportável, mas muita coisa que também é sublime, daí eu ter gostado de ver. Mademoiselle Huppert faz uma Blanche como nenhuma outra. Ela não segue o modelo Vivien Leigh. Stella acusa a irmã de ser histérica, mas é justamente aí, no comportamento de Blanche em cena, que o diretor se distancia mais das montagens que conheço. É só no final que Isabelle/Blanche se fragiliza, numa cena memorável, mas antes disso, sua violação por Kowalski é de uma intensidade que me deixou em choque – e, para culminar, a estrutura de vidro avança sobre ambos, quando o movimento do estupro está derrubando as peças do boliche, num efeito de arrasar. A adaptação é livre e Warlikowski incorpora outros autores ao texto de Tennessee Williams. De repente, os atores e até o narrador estão recitando Claude Roy, Gustave Flaubert, Alexandre Dumas (‘A Dama das Camélias’, fazendo a ponte entre Blanche e Marguerite Gautier), Oscar Wilde etc. A coisa é tão ampla que inclui Torquato Tasso (‘Jérusalem Delivrée’, Jerusalemme Liberata), Sófocles (‘Édipo em Colona’), Platão (‘O Banquete’) e até O Evangelho Segundo São Mateus… Haja erudição para acompanhar tanta loucura. Warlikowski não para por aí e põe no palco o marido belo e gay de Blanche, visualizando, por meio de um tango, uma obsessão recorrente da obra do dramaturgo (o amigo secreto de Rick em ‘Gata em Teto de Zinco Quente’). Duvido que um espetáculo desses pudesse ser exportado para o Brasil, onde Mademoiselle Huppert se apresentou no ano passado. Não seria por falta de público. Aqui, está sendo um megasucesso. A crítica bate, o público vai. A plateia principal, que dá visibilidade frontal para o espetáculo, está com ingressos esgotados até o final da temporada, em abril. Com muita sorte, conseguem-se, como eu, ingressos nas laterais, no segundo e no terceiro andares, onde a visibilidade não é das melhores, tenho de admitir. A montagem tem muita pirotecnia. O cenário é gigantesco, Isabelle muda de figurino umas dez vezes. Sua coleção de sapatos deixaria Imelda Marcos se mordendo de inveja. Gostei de ter visto. Estou indo dormir com um nó na cabeça. Mas não me perguntem se gostei. As coisas não são tão simples.