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Luiz Carlos Merten

04 Abril 2011 | 10h00

Não, Farley Granger não era parente de Stewart Granger. Vou começar o post sobre ele de forma meio enviesada. Marlon Brando foi a primeira escolha de Luchino Visconti para o papel do oficial austríaco Franz Mahler em ‘Senso’, Sedução da Carne. Teria de ir ao livro de Bruno Villiers para tentar descobrir por que – simplesmente, esqueci-me – Brando desistiu, ou ficou impossibilitado de filmar com o grande Visconti. O mestre queria um ator norte-americano, de olho no mercado internacional, e terminou fazendo o filme com Farley. Brando era muito melhor ator do que ele, mas não creio que tivesse feito um trabalho (muito) melhor. Brando estava muito impregnado do Método e ia, fatalmente, interiorizar além da conta o seu Franz. Com Farley Granger, o personagem virou um dândi amoral e sem escrúpulos, até um pouco efeminado, que sabe da sua ascendência sobre Livia Serpieri (Alida Valli) – o poder do falo – e a despreza por isso. Farley Granger era bissexual, acho até que isso meio que condicionou sua carreira em Hollywood. Ele surgiu numa época de muita repressão, em meados dos anos 1940. Depois de um pequeno papel em ‘A Estrela do Norte, de Lewis Milestone, sobre a resistência russa ao nazismo, co-estrelou com Cathy O’Donnell o primeiro Nicholas Ray, ‘Amarga Esperança’, They Lived by Night, de 1948, a que assisti somente no começo do ano, em Paris, no Action Christine. Depois vieram papéis em filmes de Anthony Mann, o noir ‘Pecado sem Mácula’, Side Street, e Alfred Hitchcock (dois). Com o mestre do suspense, ele foi o assassino de ‘Festim Diabólico’ e o tenista forçado (por Robert Walker) a uma transferência de crime em ‘Pacto Sinistro’. Acho que, aí, Farley Granger já estava estigmatizado nos papeis de personagens ambivalentes, que o impediram de se estabelecer como um jovem ‘premier’, como dizem os franceses. Ele era bonito, talentoso, mas nunca fez segredo de seu bissexualismo, tendo tido affaires famosos com Ava Gardner e o maestro Leonard Bernstein – durante a filmagem de ‘Senso’, teria dado uma escapada em Paris para se encontrar, biblicamente, com Jean Marais. Este teria sido o estopim para o seu rompimento com Shelley Winters, com quem foi casado. Ela era outra que não resistia a uma cantada, tendo tido um tórrido romance com Vittorio Gassman, findo o qual voltou para Farley, mas nenhum dos dois estava mais interessado e se separaram (em definitivo). Tudo isso deve ter assustado Hollywood, que já o confinava ‘naqueles’ papeis – ele foi Niels, o amigo de Hans Christian Anderson, que era gay (mas sublimava), no musical de Charles Vidor. Um pouco mais tarde, James Dean teve de velar o seu bissexualismo e Rock Hudson não conseguiu sair do armário, condenado, que estava, a vestir a pele daqueles heróis sólidos que esculpiram para ele a imagem de galã nos melodramas de Douglas Sirk. Nunca li nada mais profundo sobre Farley Granger e, portanto, só posso conjeturar/fantasiar sobre os motivos que o levaram a abrir mão, durante uma década inteira – 1956/68 –, de Hollywood, para se concentrar na TV e depois regressar à Itália, onde circulou até pelo spaghetti western (fez um dos ‘Trinitys’). Farley Granger foi uma personalidade curiosa, sem dúvida. Apesar de Visconti, Ray, Mann e Hitchcock, ouso dizer que seu melhor papel foi com Richard Fleischer em ‘O Escândalo do Século’, The Girl on the Red Velvet Swing, um dos grandes filmes pouco valorizados da década de 1950. Farley Granger morreu aos 85 anos. Há uns 15. 16, ele estava por volta de 70 (anos) quando foi um dos personagens principais de ‘Celluloid Closed’, sobre a cultura gay – o deputado aquele diria ‘da promiscuidade’ – no cinemão. Nos anos 2000, participou de outro documentário, sobre a Broadway, os anos de ouro, vistos por aqueles que lá estavam. Farley Granger pode não ter tido a carreira a que poderia aspirar, mas fez grandes filmes, viveu grandes romances e, sonho dourado de muita gente, integrou o chamado ‘jet set’. Se alguém acha que é pouco…

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