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Cultura » Uma tragédia fordiana

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Luiz Carlos Merten

15 Março 2016 | 09h19

Um dia ainda vou descobrir que razão secreta me impulsiona a ler certos textos. Ontem, por exemplo, havia uma Folha na mesa da Lili/Eliana Souza, pauteira do Caderno 2. Vi a foto da capa, a manifestação contra Dilma, a Paulista lotada, comparei com a capa do Estado e, automaticamente, virei a página. Havia, na 2, um texto de Ruy Castro. Nunca leio a coluna dele. Não sei se foi o título, não lembro qual era, mas li. Ruy Castro tem todo direito de jogar pedra na Geni – o ex-presidente Lula, claro -, mas tropecei no seu exemplo. Ele resolveu criar uma metáfora sobre a multidão que se rebela contra o líder que a enganou a partir de Um de Nós Morrerá, o western de Arthur Penn a que me referi outro dia (e que integra a caixa da Versátil com obras pouco conhecidas, malditas?, do grande diretor). Ruy Castro identifica-se com o personagem de Hurd Hatfield, que faz Moultrie. É quem cria o mito de Billy the Kid e, num determinado momento, reage contra ele, porque o Billy da realidade, William Booney/o jovem Paul Newman, não é o personagem que criou. Mas Penn, em nenhum momento, toma o partido de Moultrie, e não por ele ser um desgarrado no Oeste. Moultrie estabelece o contraste entre a lenda, apoiada pela sociedade que precisa de diversão (e violência) e a miserável realidade humana que William/Billy representa, e isso antecipa a crítica contundente de Bonnie & Clyde/Uma Rajada de Balas. Cada um tem seus motivos para ser como é. Moultrie é gay, William é órfão. O Kid atravessa o filme em busca de um pai – psicanálise elementar. Um de Nós Morrerá, The Left Handed Gun, o Canhoto, é um filme do tempo em que os personagens de Penn usavam o revólver como substituto do pênis. Na visão do artista, a tragédia de Billy é o mito em que se converteu, a despeito de si mesmo. O mito é uma construção do outro, de Moultrie. Será que era esse o sentido secreto do texto que li? Uma acusação aos Multries voláteis e influenciáveis? Billy, na sua solidão, é um grandioso herói trágico. Ouso dizer – eu – que é fordiano. Todo o filme de Penn, como percebe Robin Wood na belíssima análise que faz dele, converge para o gesto final em que Billy, vencido por Pat Garret, revela que a mão e o coldre estavam vazios. É a história de um suicídio, de uma redenção. Moultrie não é o crítico, é o criticado. E a fragilidade de Billy é, no limite, sua força. Robin Wood o remete a W.B. Yeats – Billy, o Kid, “o inacabado homem e sua dor/situado frente a frente com a própria torpeza”.

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