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Uma preciosidade, a caixa de Chabrol

Luiz Carlos Merten

29 Dezembro 2009 | 00h13

Fui hoje à Livraria Cultura para comprar alguns presentes de Natal que ainda me faltavam. Fiz uma descoberta interessante, que vocês talvez já saibam. Há uma caixa de Claude Chabrol com três filmes em DVD – ‘À Double Tour’, que no Brasil se chamou ‘Quem Matou Leda?’, ‘Les Bonnes Femmes’ e o terceiro é simplesmente a obra-prima do diretor, ou meu filme favorito entre os mais de 50 que ele realizou, ‘O Açougueiro’ (Le Boucher). Na entrevista que me deu e saiu no ‘Caderno 2’ de sexta-feira, dia 25, Alain Resnais, comentando sua vinculação à nouvelle vague, disse que era muito velho para integrar o movimento, mas reconheceu que muito devia, ou tudo devia, aos jovens da nova onda. Eles mostraram, ao establishment do cinema francês, que diretores de curtas podiam passar ao longa sem as exigências que os sindicatos então faziam. A prevalecerem essas exigências, Resnais teria permanecido um diretor de curtas e não teria feito ‘Hiroshima, Meu Amor’. François Truffaut, Jean-Luc Godard e Eric Rohmer lhe abriram as portas do longa. E Resnais disse mais, uma coisa interessante. Que a nouvelle vague provou que, para ser diretor, só era preciso um produtor. Chabrol foi o próprio produtor, realizando, em 1958, seu primeiro longa com o dinheiro de uma herança, se não me engano da mulher. Foi assim que surgiu ‘Le Beau Serge’, que se chamou ‘Nas Garras do Vìcio’, no Brasil, seguido, no ano seguinte, por ‘Os Primos’. Chabrol devia estar com muita fome de cinema, porque somente em 1959, há 50 anos, fez três filmes, antecipando a velocidade que virou sua marca (e ele é o primeiro a ironizar que, para um diretor com fama de preguiçoso, é muito produtivo). Naquele ano, na seqüência de ‘Os Primos’, surgiram ‘Quem Matou Leda?’ e ‘Les Bonnes Femmes’, que integram a caixa agora lançada. ‘À Double Tour’ antecipa o que será uma das tendências da obra de Chabrol, seu gosto pelo policial. O filme chega a ser exageradamente belo, com uma fotografia deslumbrante de Henri Decae. Com roteiro de Paul Gégauff, que será um colaborador habitual do cineasta, baseia-se no livro ‘The Key to Nicholas Street’, de Stanley Ellin, reunindo um elenco eclético, formado por veteranos e novos talentos, como Madeleine Robinson, Jean-Paul Belmondo, Bernadette Laffont, Antonella Lualdi, Jeanne Valerie etc.
No seu livro de memórias – ‘Et Pourtant je Tourne’ -, Chabrol conta como o filme foi selecionado para Veneza e como ele teve a intuição de que Madeleine Robinson seria premiada (ela recebeu, com efeito, a Taça Volpi para a melhor interpretação feminina). Madeleine está feia, chora, nenhum júri poderia resistir vendo uma estrela decaída. Nos cinemas, a crítica caiu matando, dizendo que o filme era mal construído, quando, na verdade, Chabrol está certo ao dizer que a estrutura faz sua beleza. Toda a história passa-se durante um dia. Entre 8 e 11 horas, duas tramas correm paralelas. Das 10 às 11, o público segue apenas uma, antes que um flash-back explique o que se passou antes. De tarde, das 2 às 6 horas, volta apenas uma intriga, depois outro flash-back esclarecedor. E tudo gira em torno da pergunta contida no título brasileiro, se bem que o original, ‘À Double Tour’, aponta para um círculo que se fecha sobre si mesmo, como Chabrol queria fazer com seu relato (e por isso ele usa tantos movimentos circulares de câmera).
‘Les Bonnes Femmes’ são de novo Bernadette Laffont e agora Stéphane Audran, Clotilde Joanno e Lucille Saint Simon. As quatro são vendedoras numa loja, não se interessam por nada, não possuem nenhuma consciência social. Chabrol foi acusado de vulgaridade e de não ser ‘revolucionário’. De nada adiantou ele dizer que era um filme sobre a alienação. A visita ao zoológico e o assassinato de uma das garotas não ajudaram o público e os críticos a perceber que o que parecia misoginia era na verdade desespero – talvez seja o filme mais ‘negro’ de Chabrol e, por favor, não me venham com críticas ao que parece ‘politicamente incorreto’.
Exatamente 11 anos depois, em 1970, Chabrol coroa com ‘O Açougueiro’ uma fase que já vinha gloriosa através de ‘A Mulher Infiel’ e ‘A Besta Deve Morrer’. Stéphane Audran, na época casada com o autor, é professora numa cidadezinha abalada por assassinatos de crianças. Jean Yanne é o açougueiro do título. Ambos se envolvem, mas ela descobre o lado sombrio do amado. ‘Le Boucher’ é o filme langiano de Chabrol, que paga tributo ao destino sombrio contra o qual se batem os personagens de Fritz Lang. O filme é sobre pulsões assassinas, sobre o primitivo que irrompe – e corrompe – a civilização (e por isso a cidadezinha se constrói à sombra dessas cavernas que guardam vestígios, ou ilustrações, de culturas bárbaras. É curioso, mas assim como os maiores filmes de Woody Allen são, para mim, os interpretados por Mia Farrow, os maiores de Chabrol são os que ele fez com Stéphane Audran, no período em que foram casado. ‘O Açougueiro’ tem direção e roteiro do próprio Chabrol, a partir de uma ideia original dele. Fotografia de Jean Rabier, música de Pierre Jansen e uma curiosidade – a professora chama-se Helena e o açougueiro é Popaul, como será mais tarde o personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo no filme de mesmo nome, de 1972, com Belmondo e… Mia Farrow.