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Uma pequena história sobre Martin Landau

Luiz Carlos Merten

17 Julho 2017 | 16h38

Se a gente tomar a carreira de Martin Landau, que morreu no domingo, 16, como paradigma para falar das novas leis trabalhistas e da capacidade de negociação individual, então é melhor cortar os pulsos ou desistir por antecipação. Em 1968, Landau e a mulher, Barbara Bain, estrelavam a série de sucesso Missão Impossível. Ele inclusive fora indicado para o Emmy por cada uma das três temporadas que já tinha o show. Não levou o Emmy mas o Globo de Outro de male top star of TV. Entrou Peter Graves com um salário superior e Landau, amparado numa cláusula de seu contrato – que dizia que ele tinha de ser equiparado ao maior salário -, foi reclamar dos produtores, que não quiseram nem saber. Landau e Barbara demitiram-se e, se achavam que iam conseguir novo emprego, quebraram a cara. Iniciou-se um período de vacas muito magras. Mudaram-se para a Inglaterra para sobreviver, o casamento acabou. Antes da TV, ele já adquirira certa notoriedade no teatro, e no cinema. Tendo se iniciado como ilustrador de colunas de jornais, em Nova York, inscreveu-se no concurso do Actors Studio, em 1955, porque atuar era o que queria. Só Steve McQueen e ele foram admitidos naquele ano. Em 1959, fez um memorável vilão em Intriga Internacional, o clássico de Alfred Hitchcock – era ele que pisava nos dedos de Roger Tornhill/Cary Grant, durante a perseguição ao herói no Monte Rushmore, quando Tornhill ficava preso pela mão. Em 1963, fez o papel de Rufio na Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz (malgrado os caprichos de Elizabeth Taylor). E aí veio Missão Impossível – o sucesso e a queda. Foi uma longa trajetória até o reconhecimento – de novo. Francis Ford Coppola foi decisivo, pelo papel que lhe deu em Tucker – Um Homem e Seu Sonho. Landau ganhou o Globo de Ouro de coadjuvante e, na sequência, foi indicado para o Oscar, também de coadjuvante, pelo marido adúltero de Crimes e Pecados, de Woody Allen. Em 1994, ganhou finalmente o Oscar de coadjuvante pelo Bela Lugosi de Ed Wood, de Tim Burton. Ganhou também o Globo de Ouro (seu terceiro), o prêmio dos críticos de Nova York etc. Martin Landau morreu no domingo, aos 89 anos, em Los Angeles. Também no domingo, e na mesma cidade, morreu George A. Romero, aos 77. Os anjos deram uma ceifada legal. Landau era de ascendência judaica. Imagino que tenha sofrido com as perseguições aos judeus na guerra e com os próprios infortúnios, mesmo que tenha sido uma disputa salarial, e não uma questão racial, que o relegou a anos de ostracismo. Essa questão da modernidade, e do reconhecimento dos melhores, não é bem assim. Remember Martin Landau. Lembrem-se do extraordinário ator que ele foi – querem saber? Principalmente no Woody Allen, em que fazia um homem muito bem-sucedido, mas duro, cruel. Modelos não lhe devem ter faltado.