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Uma Peça por Outra, e os jogos de linguagem de Jean Tardieu

Luiz Carlos Merten

19 Março 2018 | 08h54

Voltamos ontem, Dib Carneiro e eu, ao Teatro da Aliança Francesa para mais uma sessão de encantamento dentro do festival de repertório do Grupo Tapa, dedicada ao Teatro do Absurdo. Jean Tadieu, Uma Peça por Outra. Fomos, e sinceramente não esperava que fosse tão boa quanto A Cantora Careca, dirigida pelo Eduardo Tolentino. Mas é! Tolentino nos havia dito que lá atrás, no começo de sua carreira, dirigira Uma Peça por Outra, e agora a releitura era dos atores. Brian Penido Ross e Guilherme Sant’Anna dirigem o Grupo das Dores. Em cena, e num conjunto precioso, a extraordinária Clara Carvalho. Fui pesquisar, porque realmente não sabia muito (nada?) sobre Tardieu. Sua vida atravessa o século 20. Nasceu em 1903, morreu em 1995. Foi músico, poeta, escreveu para o rádio e o palco. Em forma de cabaré literário, Uma Peça por Outra oferece uma coletânea de textos curtos – esquetes – do autor. Histórias de casais e, como sempre no Teatro do Absurdo, a (im)possibilidade de comunicação. O que as pessoas dizem, o que elas estão pensando enquanto dizem, o que deixam subentendido e o que é ocultado. Como leitor de mistério à Agatha Christie, adorei o crime de Havia Uma Multidão no Solar, mas não houve um só esquete que não tenha me parecido menos que brilhante. A par do cabaré, o espetáculo investe no humor, senão não seria ‘absurdo’, e isso com um timing taco no taco de comédia. O diálogo como coito interrompido. Para meio entendedor… Basta? Descontrução do romantismo, e não apenas, Uma Peça por Outra possui uma deliciosa ambientação parisense que a mise em scène subverte à… Jacques Tati? M. Hulot? Gostei demais, e vou fazer propaganda. As três montagens – As Criadas, A Cantora Careca e Uma Peça por Outra – estão sendo apresentadas em diferentes horários durante a semana. E você pode comprar ingressos para duas ou três das peças pagando menos. Uma promoção que favorece a inteligência e alivia o bolso. Disse que pesquisei e encontrei que Jean Tardieu foi uma das referências de Júlio Cortázar em Rayuela, O Jogo da Amarelinha. O argentino paga tribuito ao francês no capítulo 152 de seu livro cultuado. Estou viajando… Deve fazer 50 anos que li O Jogo da Amarelinha. Já era uma investigação sobre a linguagem, com aquelas possibilidades de leituras (jogos?) pelo autor, mais as outras que se pode fazer por conta própria e risco. Nunca mais tinha me lembrado de Rayuela, do Bestiário. Tardieu inspirou Cortázar, que motivou… Antonioni. Las Babas del Diablo está na origem de Blow Up/Depois Daquele Beijo. Antonioni, ou a incomunicabilidade. A arte de comunicar a dificuldade de comunicação. Tudo se fecha, completa. Completa? Estou delirando, e em plena segunda pela manhã, pronto para iniciar mais (menos?) uma semana.