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Cultura » Um, dois, três filmes suecos

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Luiz Carlos Merten

25 Junho 2008 | 20h40

ESTOCOLMO – Do grupo de oito jornalistas que está aqui (estamos) na Suécia, para a Semana Bergman, há um norte-americano, Michael Koresky, que é ‘editorial manager’ da Criterion Collection, que é a Bíblia do DVD de arte. Tenho conversado com o Michael e ele disse que trabalha atualmente no lançamento – para o mês que vem – de ‘Traffic’, ou ‘As Aventuras de M. Hulot no Tráfego Muito Louco’. Não é o melhor Tati, mas tem momentos ótimos. O DVD será single, ao contrário do de ‘Playtime’, também de Tati, que a Criterion lançou duplo. Fiquei agora com uma dúvida – é ‘As Aventuras de M. Hulot no Tráfego’ ou no ‘Trânsito Muito Louco’? Ó dúvida cruel e, por falar em dúvida, meu hotel aqui em Estocolmo fica a duas quadras da Real Academia de Arte Dramática, ou do Real Teatro, do qual Ingmar Bergman foi diretor artístico. O teatro entrou em recesso de verão – apesar do frio… -, mas ainda estão pendurados os cartazes da peça de repertório que volta no mês que vem. É ‘Hamlet’ e, ao contrário do Hamlet sombrio – e dark – de Wagner Moura, como se supõe que seja o príncipe da Dinamarca concebido por Shakespeare, o da montagem sueca exibe uma camisa rosa pálida, bem clarinha, e aparece rindo na foto. Conversei com algumas pessoas do Suedish (Svensk) Filminstitut, e me disseram que a montagem é uma releitura irônica, muito atual. Fiquei curioso de ver, mas infelizmente não vai dar. Como disse, assisti hoje a três filmes, na sala Mauritz – em homenagem a Mauritz Stiller – do Svensk Filminstitut. O primeiro foi ‘Maria Larssons, Everlasting Momentis’, um filme sueco ‘tradicional’, muito bonito, de Jan Troel. No começo dos anos 70, ele fez ‘Os Emigrantes’ e ‘O Novo Mundo’, que compõem um díptico sobre a emigração sueca para os EUA. Agora, ele conta a história de uma família no começo do século 20. O pai é trabalhador braçal (e um mulherengo, além de beberrão, compulsivo). A mãe descobre sua habilidade como fotógrafa e, num meio pobre, registra momentos da grande História como da pequena história de sua família. É um filme muito delicado. Gostei. Amanhã, em Farö, vamos ter a oportunidade de conhecer o próprio Jan Troel. O filme terá sua pré-estréia mundial no quadro da Semana Bergman e hoje nos foi dado vê-lo como uma cortesia especial do Filminstitut. A propósito – descobri que ‘Summer Interlude’, o Bergman de 1951 que vamos ver na sexta foi uma escolha de Troel, o grande convidado sueco – o ‘padrinho’ da semana deste ano, como Margarethe Von Trolta, a ‘madrinha’, é a grande convidada internacional. Na seqüência, depois do almoço, assistimos a ‘Involuntary’, de Ruben Osllund, o novo enfant terrible do cinema sueco. O filme passou na mostra Un Certain Regard de Cannes, em maio. É um filme assumidamente de arte, que quer fazer um comentário sobre a sociedade atual, constituído de cenas que vão sendo construídas separadamente, e que se articulam em torno de um punhado de personagens que vivenciam todo tipo de situação desastrosa (e até destrutiva, entre eles). Achei interessante, mas não gostei muito. E o tal Ruben com certeza quer nos chocar. Não tenho muita paciência para isso, ou então o que me choca não é o que choca os outros. O terceiro filme, ‘Lobo’, é mais comercial e é um grande sucesso de público, mas também de crítica, aqui na Suécia. O filme vai para Montreal. Conta a história de um conflito geracional, envolvendo a construção da ética, em torno de tio e sobrinho, mas eles parecem pai e filho, cujos destinos se cruzam quando o garoto mata (e o outro assume a culpa) um lobo, animal protegido por lei na Suécia. O filme foi rodado em amplos espaços gelados próximos à fronteira com a Noruega. É visualmente muito bonito – o fotógrafo, me disseram o nome, mas esqueci, é o mesmo de ‘Elvira Madigan’, de Bo Widerberg, que virou cult em todo o mundo, por volta de 1970. Mas não foi pela beleza que o filme me apanhou. Achei o conflito geracional forte. Me emocionei, ao contrário do ‘Involuntary’, que me pareceu mal solucionado (o desfecho, principalmente). Conversei com a produtora do filme, Anita Oxburgh, que achei muito legal. À parte Bergman, um assunto obrigatório no jantar foi a troca de informações sobre os cinemas sueco e brasileiro. Todo mundo queria saber se existe um diretor sueco conhecido, ou apreciado, no Brasil. De novo ressalto – à parte Bergman, citei o Roy Andersson, que eles têm aqui em alta estima. E vocês?