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Cultura » Uma orgia de DVDs

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Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2006 | 10h03

Não tenho tido tempo de falar sobre os lançamentos de DVD, mas vai ter cinéfilo caindo duro quando a Mostra terminar e as pessoas puderem ver o que se passa no cotidiano do nosso mundo real. Antes de chegar aos títulos – aos quais voltarei, prometo –, quero só fazer um comentário. Os executivos das Majors no Brasil não falam em outra coisa senão no fortalecimento do mercado de DVD e do que a polícia e o governo podem (e devem) fazer para combater a pirataria. Mas é curioso observar que, entre os dez títulos mais retirados nas locadoras, não há um que não seja do cinemão, que eles estão aí para defender. Por insegurança ou o quê, as pessoas estão preferindo ver lançamentos em casa, mesmo que tenham de esperar a janela de três meses para assistir a O Código da Vinci, Missão Impossível 3, Separados pelo Casamento e as fantasias de terror (Todo Mundo em Pânico 4, Premonição 3 e O Albergue), que estão no topo da lista elaborada pelo InformEstado, do Estadão. Ou seja, o caso é de polícia, mas também tem um fundo social muito forte, que não pode ser subestimado. Feita a ressalva, os cinéfilos gostarão de saber que a Aurora e a Versátil, distribuidoras de DVDs definidos como ‘de arte’, continuam zelando por eles. A Aurora zela tanto que acaba de colocar nas lojas o DVD de Muriel, resgatando o filme de Alain Resnais, de 1963, que nunca foi lançado comercialmente no País (mas foi visto em um ou outro evento especial). Sempre obcecado pelo tempo, e pela memória, Resnais, com roteiro de Jean Cayrol (que havia escrito para ele Noite e Neblina, também lançado pela Aurora), trata de um episódio ocorrido na Guerra da Argélia e que repercute na vida dessa mulher francesa, interpretada por Delphine Seyrig, a escultórica heroína de O Ano Passado em Marienbad. É extremamente rico o processo como Resnais lê, e elucida, os grandes escritores com quem trabalhou (Marguerite Duras, Robbe-Grillet, Jorge Semprun, David Mercer), transformando o texto em imagem. Pela Versátil saem A Trilogia das Cores de Kieslowski (numa caixa com três discos repletos de extras, além dos filmes A Liberdade É Azul, A Igualdade É Branca e A Fraternidade É Vermelha) e A Morte (La Commare Secca), primeiro longa de Bertolucci, de 1962. A Morte antecipa Prima della Rivoluzione, que passa hoje, às 13h30, no Arteplex 2, integrando a retrospectiva do cinema político italiano (e que também foi lançado em DVD, pela própria Versátil, se não me engano). A Morte foi escrito por Pier-Paolo Pasolini, desenvolvendo um roteiro tipo quebra-cabeças com várias versões sobre o assassinato de uma prostituta. Pasolini tinha aquela atração pelos excluídos, nos filmes que só escreveu e também nos que dirigiu, no começo de sua carreira. De minha parte, ainda não desisti de esperar que a Versátil, ou agora a Aurora, lancem os filmes que Pasolini escreveu para Bolognini (A Longa Noite de Loucuras, O Belo Antônio, Um Dia de Enlouquecer) e vão permitir fazer justiça a um grande diretor injustamente menosprezado (por mim, inclusive) como um sub-Visconti.