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Uma ode aos vaqueiros voadores

Luiz Carlos Merten

23 Abril 2010 | 14h02

E os 50 anos de Brasília foram comemorados com pompa e circunstância. Oscar Niemeyer, mais do que o presidente Juscelino Kubistchek, foi o herói da comemoração. Os estraga-prazeres de plantão tentaram ofuscar a festa lembrando os anos de ditadura, as negociatas e as acusações de que o isolamento, a ‘distância’ do Planalto Central, favorece a corrupção, na medida em que contribui para isolar os políticos profissionais de seus eleitores. Uma ou outra voz lembrou que a arquitetura escultórica de Niemeyer pode celebrar o humano conceitualmente, mas não se presta ao uso mais básico. Vou me juntar ao coro dos descontentes. Conheço pouco Brasília, e sempre rapidamente – alguns dias durante o festival de cinema, e olhe lá. Estudei arquitetura, fui impregnado de Le Corbusier, portanto, sou suscetível à genialidade do plano diretor da capital. Mas alguns filmes que remontam aos tempos heróicos, à saga épica da construção da cidade, permanecem comigo e são críticos, desmistificadores. Em geral, são documentários, ou ensaios poéticos. Em 1990, Vladimir carvalho fez – mas demorou uns dois ou três anos para concluir – ‘Conterrâneos Velhos de Guerra’, que discute a utopia brasiliense pelo simples fato de mostrar a construção da capital pelo ângulo dos operários, que foram afastados para a periferia e nunca puderam habitar a cidade que haviam construído. Pior – Vladimir reconstitui a escandalosa história de um massacre de operários, no canteiro de obras, em 1959. Mas eu confesso que tenho uma atração especial pelo ‘Romance do Vaqueiro Voador’, que Manfredo Caldas adaptou do poema de João Bosco Bezerra Bonfim. Luiz Carlos Vasconcelos é quem conduz a gente nessa investigação do imaginário do nordestino e que também é outra reconstituição do lado trágico da epopéia da construção da capital do Brasil. Os ‘vaqueiros voadores’ abandonavam o sertão, o agreste e buscavam em Brasília uma possibilidade de vida mais digna, livre da seca e da estrutura oligárquica da região. Só que, despreparados, ao trabalhar na construção civil, em condições precárias, sem segurança, eles ‘voavam’ dos prédios para a morte, sem que ninguém, aparentemente, se preocupasse com isso. Eram as baixas do que havia virado uma guerra, para comprimir 50 anos de história em cinco (o mandato de JK), inaugurando Brasília no prazo estipulado. Acho muito bonito o formato de cordel e a forma como Luiz Carlos Vasconcelos executa sua dança de vaqueiro no cenário menos indicado para isso – o mundo de concreto de Brasília, naquele vazio imenso e escancarado. O pior – outros dirão que é o melhor? – do progresso é que, passado um certo tempo, ninguém se lembra muito dessas coisas. Jia Zhang-ke vem construindo, na China, toda uma obra para mostrar como o progresso e o desenvolvimento estão destruindo famílias, cidades, todo um mundo condenado à extinção, em nome do futuro. A construção da gigantesca represa de Três Gargantas, a maior do mundo, deixou um cortejo de vítimas. Quem se importa, exceto Zhang-ke e os que choraram seus mortos? Quem ainda chora, exceto Manfredo Caldas, os vaqueiros voadores?

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