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Cultura » Uma Noite no Museu, um filme político?

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Luiz Carlos Merten

14 Janeiro 2007 | 12h18

De volta a São Paulo! Chueguei ontem à tarde, depois de uma viagem que incluiu horas de espera no aeroporto, em Porto Alegre. Começou tudo de novo? Sei não, mas a Anac devia tomar algum tipo de providência, pois é flagrante o desrespeito da Gol em relação a seus passageiros. Ontem, em Porto, as informações da companhia eram absolutamente conflitantes. No balcao, no portão, pareciam dois mundos, duas companhias diferentes. Mas, enfim, estou de volta e ontem, mesmo cansado, fui ver Uma Noite no Museu, de um tal Shaun Levy, que eu teria de navegar antes para saber quem é. A produção é de Chris Columbus e este eu conheço mais. Columbus pratica um tipo de comédia familiar (a série Esqueceram de Mim) que mistura violência e sentimentos. Também cultiva a fantasia, tendo iniciado a série conm Harry Potter, que ficou melhor quando ele desistiu de dirigir. Uma Noite no Museu une as duas tendências. Tem tudo – fantasia, sentimentos, violência. Logo no começo, o pai fracassado ouve do filho uma advertência. O garoto, sob a influência do padrasto que trabalha na Bolsa – e não é do bem, veja-se como ele engana Ben Stiller, pelo simples fato de não lhe passar as informações corretas, no caso do feriado -, diz ao pai que desista de seus sonhos, que crie juízo e consiga um emprego como as pessoas ‘normais’. É curioso, mas é o reverso do que você deve estar vendo em outro filme, este ainda em trailer, pois ainda não estreou. Em A Procura da Felicidade, Will Smith, comendo m…, pois tudo está dando errado para ele, diz ao filho que não desista do sonho. Nunca! Uma Noite no Museu é a milionésima história de um pai que reconquista o filho. É banal, num certo sentido, mas diverte e permite uma leitura, digamos, política. Ben Stiller, o guarda noturno, arranja um amigo no museu – é a estátua que representa o presidente Teddy Roosevelt, que lhe explica o que ocorre ali dentro, à noite. Por que todas aquelas figuras adquirem vida? Há um segredo, uma placa que os antigos guardas (os agentes da repressão) vão querer roubar. Teddy não apenas impulsiona Ben Stiller a agir com suas mensagens de auto-ajuda, como termina por promover, por meio dele, a união de todas as tendências em choque lá dentro. O museu, obviamente, é a América, os EUA. E Teddy Roosevelt, o 26º presidente americano, passou à história como o homem que pregava a lei do porrete para salvaguardar os interesses dos EUA no mundo, como faz hoje o presidente George W. Bush. No filme, Teddy vai contra o próprio lema. O porrete não é a solução e o que ele ensina é que as lições do passado nos ajudam a construir o futuro. Bush está atolado no Iraque. Sua solução é enviar mais tropas. Pelo visto, nada aprendeu com o Vietnã – e nem poderia, pois durante a campanha eleiotoral ficou provado que ele usou o prestígio de papai para não ter de lutar no Sudeste Asiático. Uma Noite no Museu, um filme político? Pode ser, mas a cena mais hilária é uma paródia de psicanálise, quando Ben Stller ‘analisa’ a tendência de Átila, o huno, à destruição. A platéia do Arteplex quase morreu de rir, ontem à tarde, e eu imagino quie isso esteja ocorrendo em outras sessões. Uma Noite no Museu não vai entrar para a história como uma grande comédia, até porque demora a engrenar. Mas diverte e ainda passa algumas ‘mensagens’, como se diz, ‘positivas’. Para ver nas férias, com pipoca e refrigerante, é um programa legal e os adultos talvez se divirtam mais, pois é cheia de referências a épicos e westerns para quem quiser ler nas suas entrelinhas.