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Luiz Carlos Merten

18 Setembro 2011 | 11h55

Em janeiro de 2003 entrevistei Daniel Toscan du Plantier em Paris. Se não foi no meu primeiro Rendez-Vous du Cinéma Français, foi num dos primeiros. Plantier era o próprio sr. Unifrance e, se não inventou a Unifrance, foi com ele que a organização alcançou projeção mundial, levando o cinema francês a todo o mundo. A dobradinha Plantier/Jean-Gabriel Abicocco foi fundamental para que o cinema da França se consolidasse no Brasil por meio de iniciativas como a criação do Belas Artes. Como produtor, ele fez filmes importantes e deu impulso à ópera no cinema, com filmes como o ‘Don Giovanni’ de Joseph Losey, a ‘Bohème’ de Luigi Comencini etc. Naquela conversa, ele me anunciou seu novo projeto do coração – uma versão infantil de ‘A Flauta Mágica’, dirigida por Coline Serreau. Marcamos encontro para o Festival de Berlim, no mês seguinte. Eu deveria passar pelo estande da Unifrance, para uma taça de vinho. Esse encontro nunca se realizou. Daniel Toscan di Plantier morreu menos de um mês depois, às vésperas do festival. Tenho a impressão de que, com ele, foi-se ‘A Flauta Mágica’, porque nunca mais ouvi falar do projeto de Coline Serreau. Se o filme tivesse sido feito, e por uma diretora como ela, certamente teria tido alguma repercussão. Para dizer a verdade, há tempos não ouço falar de Coline, autora de ‘Por Que não?’, ‘Três Homens e Um Bebê’, ‘Romuald e Julieta’ e ’A Crise’. Lembrei-me ontem de Toscan du Plantier, depois de assistir, no Sesc Pinheiros, a ‘Uma Flauta Mágica’. Fui com meu amigo Dib Carneiro, encontramos um monte de gente conhecida, inclusive o ex-secretário do Audiovisual, José Álvaro Moisés, a quem não via há muito tempo. Moisés, diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, me falou da pesquisa que coordena atualmente, sobre os 25 anos de democracia no País. É um dos temas do ‘Aliás’ de hoje. Mas, enfim, meu assunto é a ópera de Mozart. Como crítico de teatro infantil – além de dramaturgo –, Dib me disse que já viu muitas versões de ‘A Flauta Mágica’, incluindo como marionetes. Eu vi uma montagem no Teatro Municipal, o filme de Ingmar Bergman, claro, e, agora, a versão de Peter Brook. ‘Uma Flauta Mágica’ – o ‘uma’ faz toda diferença. Na véspera, havia assistido à ‘Crônica da Casa Assassinada’, cuja montagem já fazem dialogar teatro e ópera. Mas nada me preparava para o extremo depuramento formal de Peter Brook. A ópera sem cenários nem figurinos, reduzida a uma estilização imensa. Puro minimalismo. Reduzida? Os atores/cantores, a iluminação, o acompanhamento de piano e a partitura que Wagner descreveu como ‘a obra-prima da perfeição quase insuperável’. Precisa mais? Papageno, que sonha capturar donzelas em sua gaiola de pássaros. Tamino, que se arrisca para salvar sua amada Pamina, filha da Rainha da Noite. A ópera pode ser vista como um conto de fadas, com a flauta e o sino mágicos, mas também é impregnada de símbolos maçons, exaltando a virtude, o amor e a sabedoria. Em vários momentos, o texto delimita o papel da mulher à sombra do homem, numa perspectiva pré (anti?) feminista, mas o humor de Papageno é uma coisa tão maravilhosa que meio que subverte o próprio libreto. As duas árias da Rainha da Noite, os seus fás, podia ficar ouvindo eternamente, mas Peter Brook fez um rigoroso trabalho de síntese. O todo dura em torno de uma hora e meia, cantado em alemão e com diálogos em francês. Tudo era tão exato – as vozes, as luzes, os passos para lá e para cá –, e, ao mesmo tempo, parecia tão espontâneo. As improvisações de Papageno em português – pedindo um ‘beijinho’ –, confesso que chorei, mas não era por algum apelo melodramático do texto nem dos personagens. Era pura emoção estética, reação íntima e incontrolável a tanta beleza. Só tenho de agradecer a Adriana Monteiro, que insistiu para que eu fosse. Só tenho de agradecer por esse belo presente. E, agora, para hoje, o quê? Como manter o alto nível da ‘Crônica’, da ‘Flauta’? Indo rever ‘O Cavalo de Turim’ na retrospectiva de Béla Tarr…