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Luiz Carlos Merten

02 Março 2011 | 11h51

Completam-se hoje 15 anos da morte dos integrantes do grupo Mamonas Assassinas. 15 anos! Já estava no Estadão, claro – cá estou há 22 anos –, mas não naquele domingo à noite em que a notícia do acidente aéreo correu como pólvora. Eu mal sabia da existência de Dinho e seus amigos. Conhecia o hit ‘Minha Brasília Amarela’ – quem não, na época? –, mas nunca fui muito de assistir a TV, exceto filmes na TV paga. Conforme descobri mais tarde, eles foram um fenômeno televisivo. Foram quantos? 240 dias, oito meses. A exposição na mídia, na TV, deu visibilidade aos garotos. Assisti no ano passado, ou em 2009, nem lembro mais, na praça, em Tiradentes, ao documentário de Cláudio Kahns sobre os Mamonas. O diretor tinha o projeto de fazer uma obra de ficção – ainda tem? – e até como pesquisa fez o documentário. Juntei-me ao povo que, na praça, assistia ao filme. Dizia – vou ver um pouquinho, mais um pouquinho – e não conseguia desgrudar o olho da tela. Mas o que me prendia não era o filme do Cláudio, que não é ruim, mas o Dinho, que era, não sei se um gênio, mas um garoto da sua idade, feliz com o próprio sucesso e cheio de tezão. A alegria de viver. O cinema, já nos lembrava disso Wim Wenders em ‘Nick’s Movie’, é um instrumento de vida e morte. De vida porque permite que coisas e pessoas sejam eternizadas como imagem em movimento, mas, justamente nessa imagem, para todo o sempre repetida, e da mesma forma, está a negação da vida que o cinema nos dá a ilusão de captar. Acho que era no programa do Faustão, Dinho tinha de se declarar para a namorada e ele o fazia com tanto charme, evoluindo, como mestre sala, ao redor da moça, que o próprio Shakespeare, vendo a cena, se já não tivesse escrito ‘Romeu e Julieta’ 400 anos antes (e antes de ele próprio morrer!), com certeza teria ali o insight para escrever sua tragédia lírica sobre a juventude impulsiva e o amor. O documentário recolhe as pérolas do Dinho, a sua ‘filosofia’. Para as coisas simples da vida, ele tinha sempre uma observação, uma fala espirituosa, irreverente. Confesso que minha descoberta dos Mamonas foi tardia. Em Tiradentes, por meio do cinema. Não é menos sincera. Por que estou escrevendo este post? Quando vou abrir a internet, no computador do ‘Estado’, me vem automaticamente a página do ‘Estadão’, que hoje tem esse material de arquivo, com direito a clipe, lembrando o grupo e aquele domingo trágico. Aproveito para postar sobre outra tragédia que, felizmente, não houve. Ubiratan Brasil, meu novo editor, regressando de Los Angeles (e do Oscar), viveu ontem momentos de angústia. Bira deveria ter chegado hoje pela manhã  a São Paulo, mas ontem seu avião sofreu uma pane – um problema nas turbinas – e teve de fazer um pouso de emergência em Guadalajara, no México. Bira está confinado no aeroporto, por falta de visto para o México. Remember ‘O Terminal’, o grande filme de Steven Spielberg. Duas ‘percas’, na mesma semana, a equipe do ‘Caderno 2’ não teria condições de aguentar.