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Cultura » Uma batalha no gelo

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Luiz Carlos Merten

18 Março 2007 | 19h26

Passei o dia hoje lendo, assistindo a TV paga e reorganizando meus DVDs, que estavam virados numa bagunça. Acabo de ver Rei Arthur, do Antoine Fuqua, com Clive Owen e Kyra Kneightly. Na entrevista que fiz por telefone, com Jerry Bruckheimer, comentei o fracasso do filme com ele. Ele me disse, e não devia estar mentindo, que tem um carinho muito maior por este filme, com o qual perdeu dinheiro, do que pelos outros, que lhe deram fortunas. Gosto muito das cenas de batalhas de Rei Arthur, que acho, talvez, as melhores do cinema recente. Fuqua admitiu, quando o entrevistei, que havia ficado surpreso com o convite do produtor. Por que eu, ele se perguntou? Um negro, americano. Nada a ver com a lenda de Arthur e a origem da Bretanha, mas Bruckheimer insistiu para que ele dirigisse Rei Arthur, achando que Fuqua compreenderia a complexidade do personagem e de sua luta pela liberdade. Antes de ser Arthur, ele era Artorius, um tribuno do exército romano. Sua história para se tormnar rei dos bretões, envolta em lendas, é uma história de amizade e de inteligência no estabelecimento de estatégias militares. Fuqua contou que não sabia direito como filmar a batalha do gelo. Comentou com Roman Polanski, num encontro social, e Polanski lhe sugeriu que assistisse a Alexandre Nevski, de Serguei Eisenstein, com sua clássica batalha no gelo. A de Rei Arthur, mesmo sem a partitura de Prokofiev (que Eisenstein usa), é impressionante, mas a batalha final é mais impressionante ainda. Batalhas em geral tendem a ser confusas no cinema, mas esta é muito bem pensada e filmada. Todos os movimentos se assemelham a peças num jogo de xadrez. Não vou dizer que Rei Arthur seja um grande filme, mas tem coisas que me agradam muito. A maneira como Fuqua insinua o triângulo Arthur-Guinevere-Lancelot é muito sutil, feita de olhares e gestos furtivos – e dentro de um épico, onde o que importa é a construção do personagem no plano externo. Fuqua fez um épico intimista. O mega-produtor Bruckheimer diz que aprendeu muito com este fracasso. Acho que entendo o que ele quer dizer. Não se refere só a estratégias de lançamento que não deram certo. Refere-se a filmagem, edição, interpretação. Gostar ou não gostar de Rei Arthur. O filme é sólido, não tenho outra definição.

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