Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Uma Alma Simples

Cultura

Luiz Carlos Merten

15 Abril 2007 | 23h44

TOQUIO – Devia estar passeando pela capital japonesa, aproveitando o fato de estar aqui, do outro lado do mundo, mas estou neste business center, sozinho, postando, porque existem experiencias que gosto de compartilhar. O blog tem este lado de diario. Tem horas que escrevo como se estivesse escrevendo num diario. Por exemplo – na volta de Porto Alegre, na folga de Pascoa, comprei no aeroporto Salgado Filho o volume da LPM com tres contos de Gustave Flaubert. Comprei porque o primeiro deles era Uma Alma Simples, que se chama Un Coeur Simple, no original. Naoh conhecia o texto e sempre tive curiosidade, porque era o filme que Vittorio De Sica queria fazer. Durante mais de uma decada ele tentou desenvolver este projeto, mas ninguem se interessava. E ele ficou fazendo todos aqueles filmes para Sophia Loren e Marcello Mastroianni, ganhando o Oscar – seu quarto!- por O Jardim dos Finzi-Contini, quando o que queria era contar a historia de Feliciteh, Felicidade. Eh a domestica que tem a alma simples do titulo. Feliciteh passa pelo mundo como uma sombra. Pouca gente se dah conta de que ela existe. Feliciteh vive devotada aa patroa. Sofre com ela, quando perde a filha. E tem as proprias dores – o namorado que a abandona, o sobrinho que morre. Todo o seu amor, Feliciteh transfere para o papagaio, Lulu, que tambem morre. Bastou ler para saber porque De Sica queria tanto filmar essa historia. Seria seu retorno a Umberto D, o mais intenso, sofrido e pessoal de seus filmes, no qual ele deu o nome do proprio pai ao aposentado que tenta manter sua dignidade num mundo que naoh liga mais para ele. Como Umberto tinha seu cachorro, Feliciteh tem o papagaio. Poderia ser um belo filme, mas, enfim, nos anos 60 e 70, De Sica jah se despedira do neo-realismo para fazer cinema comercial. Abandonara o primeiro mandamento do movimento – soh filmar com atores naoh profissionasis – para celebrar o estrelismo de Sophia, de Marcello, de Faye Dunaway, de Richard Burton. Encontraria ele o tom para contar essa historia? Nunca saberemos. O mais interessante foi que lendo Uma Alma Simples se delineou, para mim, uma ponte muito clara entre Umberto D, o conto de Flaubert e o filme que Suzana Amaral adaptou de Autran Dourado, sobre aquela outra alma simples. Vocehs sabem do que estou falando, mas naoh me vem agora o titulo do filme. A personagem da Suzana tambem se compensava ligando-se a um cachorro. Lembram? Serah que Autran Dourado leu Uma Alma Simples? Suzana Amaral,com certeza, viu Umberto D. O personagem de De Sica eh um velho. A dela eh uma mulher jovem, mas com identica dificuldade de adaptacao ao mundo. Nunca havia feito esta ponte. A ficha me caiu, assim, do nada.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato