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Cultura » Um Welles ‘menor’

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Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2008 | 16h46

PARIS – Apesar da procedência, este ainda vai ser, basicamente, um post sobre coisas ocorridas no Brasil. Na quinta, ao sair do hospital, fiquei de molho em casa – um dia, pelo menos! -, embora tivesse preparativos para a viagem do dia seguinte, que não consegui concluir. De olho na TV, terminei assistindo a um dos raros filmes de Orson Welles que nunca tinha visto. Não me perguntem por quê, mas não conhecia ‘O Estranho’, que Welles realizou nos anos 40, com Loretta Young e Edward G. Robinson. Como muitos outros filmes da época, ‘The Stranger’ (título original) trata da caçada a um falso inocente. Ou, por outra – num mundo que descobria os horrores da 2ª Grande Guerra, Welles mostra este antigo nazista que se escondeu numa pequena cidade dos EUA, casou-se com uma garota que nada sabe do seu passado e para quem ele é apenas um dedicado professor da escola local. Ou seja, o cara é o estranho total e aí chega este caçador de nazistas que seguiu seu rastro. O tema do filme é a morte da inocência, embora estejam presentes assuntos que sempre foram caros ao ator e diretor – o poder, a manipulação etc. Sempre ouvi falar de ‘O Estranho’ como um filme menor de Welles, pelo qual ele próprio não tinha muito apreço. Não é muito difícil procurar seus defeitos. Há mesmo uma questão de verossimilhança (ou falta de…) que é essencial. O fim da guerra ainda era muito recente para Kindler, o nazista, ter conseguido apagar completamente seus traços, construindo, sem suspeita, outra vida numa terra estranha. Mas feita a ressalva, e ela é seria, Kindler tem tudo a ver com Harry Lime, que Welles interpretou em ‘O Terceito Homem’, de Carol Reed, filme tão ‘wellesiano’ que muita gente acha que o ator também o dirigiu ou, pelo menos, supervisionou, o que é uma injustica com Reed. A pressão de Edward G. Robinson, o caçador, sobre Loretta Young – que poderá ajudá-lo a descamascarar seu marido -, explode na cena em que ela, histérica, arranca o colar e as pedras rolam pelo chão, expressando mais do que a instabilidade da persionagem, a instabilidade do mundo. Vinte anos mais tarde, Arthur Penn criou uma cena parecida para expressar a loucura da cidadezinha texana de ‘Caçada Humana’, naquele sábado infernal em que todo o mundo sai à caça de Bubby Reeves (Robert Redford). É quando a bêbada e descontrolada Martha Hyer também rompe o fio de seu colar de pérolas. Justamente a partir da cena similar – e anterior -, ‘O Estranho’ fica muito bom. Welles, ou Kindler, percebe que tem de eliminar a mulher para se salvar e arma um acidente no alto da torre da igreja, de onde as pessoas parecem ‘formigas’, ele diz. Em ‘O Terceiro Homem’, Harry Lime diz a mesma coisa, no alto da roda-gigante, para Joseph Cotten. Esta meia-hora final de ‘O Estranho’ é brilhante pelo jogo expressionista de sombras, influência que Welles já assimilara em ‘Cidadão Kane’ e que permaneceu sempre presente, até o fim de sua carreira. Tudo bem, Welles fez coisas muito melhores, antes e depois. Mas ‘O Estranho’ não é uma obra menor e, se assim for considerado, é a prova de que o inverso é que era verdadeiro. Welles era tão grande que qualquer obra por ele dirigida, que não fosse ‘prima’, só podia ser considerada menor. Muito diretor considerado bom morreria para ter no currículo uma obra ‘pequena’ como essa.