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Cultura » Um uruguaio pequeninho

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Luiz Carlos Merten

08 Fevereiro 2009 | 11h48

BERLIM – Quem frequenta o Festival de Gramado conhece o paradoxo. O Uruguai, nosso vizinho de Prata, produz um ou dois filmes por ano. Quando concorrem aos Kikitos, esses filmes invariavelmente ganham. Muitos jornalistas já se perguntaram qual o mistério do cinema uruguaio – o diretor Pablo Rebello, acho que foi ele, disse certa vez que a resposta é simples. O Uruguai não tem uma TV forte como o Brasil e isso possibilita que o cinema desenvolva a ‘sua’ linguagem sem os vicios narrativos – e de interpretação – da telinha. Do Uruguai, chegou aqui a Berlim um filme tão pequeno que parece o patinho feio. Não sou insistir no chavão – patinho feio vira cisne etc -, mas insistindo quero dizer que ‘Gigante’ é uma surpresa e tanto, mesmo para o padrão de uma cinematografia que volta e meiua ultrapassa seus limites modestos. O filme conta a história desse sujeito que trabalha no sistema de vigilância de uma firma, um hipermercado. Ele descobre pela TV essa faxineira por quem se sente atraído. Passa a espiá-la e até persegui-la, mas sempre discreto, sem jamais se tornar ameaçador. O compartamento do personagem é muito interessante. Ao mesmo tempo em que é atraído, a distância – o olho da câmerta – o protege e afasta do seu objeto de desejo, do qual ele não deixa de ter medo, talvez por timidez, ou insegurança. A solidão do personagem, sua ligação com a irmã e o sobrinho são definidos por meio de informações simples. Nada vira tudo e o filme cresce, inclusive nas interpretações dee Horacio Camandulle e Leonor Svarcas. Ele veio do teatro, tem um fisico maciço, de brucutu, mas seu jogo (de cena) é discreto, contido. Ela cria o que encerra um grande desafio – uma personagem que basicamente existe pelo olhar do outro. ‘Gigante’ é um belo filme, mas eu confesso que me decepcionei – com o diretor. Adrian Biniez filma bem, mas se explica mal. Talvez por ser ele próprio tímido, ou estar nervoso, faltam-lhe palavras e ele termina banalizando o próprio discurso. O ator quase não falou. Quem se saiu muito bem na mesa foi a atriz – Leonor é muito articulada. Disse coisas ótimas sobre o roteiro, a filmagem, a personagem. Um eventual prêmio – de interpretação? – poderá ajudar no lançamento internacional do filme. Antes disso, pode ser que ‘Gigante’ vá para o Festival de Gramado e, depois, para o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo. Fiquem de olho!