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Cultura » Um século de cinema

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Luiz Carlos Merten

11 Dezembro 2008 | 20h03

Quer dizer então que é hoje, exatamente, o dia do centenário de Manoel de Oliveira? Grande Manoel – a homenagem que Cannes lhe prestou em maio, outorgando-lhe uma Paklma de Ouro especial por sua carreira, foi um dos momentos mais bonitos (senão o mais…) do festival deste ano. O próprio Gilles Jacob fez um discurso emocionante que, na época, eu me lembro de ter sugerido que vocês procurassem no site do evento. Cannes tinha um site maravilhoso, onde era fácil navegar e encontrar tudo, mas ultimamente houve uma mudança que complicou as coisas desnecessariamente (e tem coisas que eu simplesmente não consigo encontrar mais, como as coletivas que eram transcritas e permaneciam como registros para a posteridade. De volta a Manoel de Oliveira, não gostei muito de seu ‘Cristóvão Colombo – O Enigma’, mas achei linda a declaração de amor de sua mulher, quando dona Maria Isabel, que a gente conhece aqui da Mostra, sussurra ‘Te amo e te seguirei até o fim do mundo’ e o galante Manoel, centenário, acrescenta – ‘Espero, measmo’. Meu primeiro Manoel de Oliveira eu não esqueço – e permanece até hoje como um dos melhores. Foi ‘Non ou a Vã Glória de Mandar’. Outros que me encantam – ‘Dia do Desespero’, ‘O Vale Abraão’, ‘Viagem ao Princípio do Mundo’, ‘Vou para Casa’ e ‘Um Filme Falado’. Parece banal dizer isso, mas alguns desses filmes são tão ousados e inovadores que mais parecem obras de um jovem descobrindo (ou inventando) o cinema e não de um velhinho centenário. Duas cenas, dois exemplos – Michel Piccoli olhando com preguiça para o sapato que comprou em ‘Vou para Casa’ (uma reminiscência do episódio de Godard, com Eddie Constantine, em ‘Os Sete Pecados Capitais’) e a refeição no transatlântico de ‘Filme Falado’, quando se reúnem aquelas pessoas de diferentes nacionalidades, cada uma falando na sua língua (inglês, francês, português, italiano, grego) e todos se entendem, numa conversação fluida. Vejam que Oliveira, incansável – meus amigos jornalistas de Portugal dizem que ele é movido a cinema e que, se parar de filmar, morrerá -, está envolvido atualmente em ‘N’ projetos. Constam como prontos ‘Romance da Vila do Conde’ e ‘O estranho Caso de Angélica’. No ano que vem – daqui a pouco -, ele conclui mais um, ‘Singularidades de Uma Rapariga Loira’. Desejo para Manoel o que eu ouvia com freqüência na minha infância – que Deus o conserve!