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Cultura » ‘Um Profeta’, excepcional

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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2009 | 13h00

CANNES – Fui ontem sem muita expectativa para o filme de Jane Campion e confesso que gostei de ‘Bright Star’. No fundo, esperava mais de ‘Um Profeta’, porque gosto dos filmes anteriores do diretor Jacques Audiard, ‘Um Homem Muito Discreto’ e ‘De Tanto Bater Meu Coração Parou’. Mas ‘Um Prophète’, com toda expectativa que pudesse ter, terminou por me surpreender. Que filme! A França vai bisar a Palma de Ouro do ano passado? Vocês sabem como amo Alain Resnais, mas o velho vai ter de se superar (e muito…) para ser melhor do que Audiard e, de qualquer maneira, são diferentes concepções de cinema autoral. Audiard reinventa o cinema de gângsteres e de cadeia. Ele admitiu, na coletiva, que viu ‘Carandiru’ – e que gostou do filme de Hector Babenco; Silvana Arantes fez a pergunta -, mas não deixou claro se foi alguma espécie de influência para a história do garoto árabe que desembarca na cadeia, na cena inicial, desprotegido e analfabeto. Na cadeia ele se alfabetiza, adquire uma identidade e uma carreira de criminoso à sombra de um gângster corso. Mas o filme não é sobre o pequeno criminoso que vira um chefão. O que o garoto solitário adquire é muito mais. Uma identidade, uma linguagem, uma família, um lar. Jacques Audiard é filho de um grande roteirista, Michel Audiard. Digo grande, mas Audiard pai, com seu profissionalismo, representava o cinema de qualidade detestado por Truffaut. Jacques teve três roteiristas em ‘Um Profeta’. Foi a minha vez de perguntar como ele trabalha com os roteiristas, já que o filme tem temas similares aos de seus trabalhos precedentes. Um dos roteiristas me disse que o roteiro demnorou três anos para ser escrito justamente porque Jacques Audiard é muito exigente e, se é verdade que seus colaboradores têm a primeiras palavra, ele tem sempre a última e não se dá por satisfeito enquanto o roteiro não está exatamente como quer. O filme tem dois atores excepcionais – Niels Arestrup, como o velho corso, que vai ser o pai patrão do herói na prisão, e Tahar Rahim, que se transforma na tela, como o protagonista. Tahar é excepcional no papel. Estava vivendo um sonho. Sua única experiência anterior foi um pequeno papel, num pequeno filme. Ele cria um grande personagem num filme cheio de nuances. P… ator! Sua euforia naquela mesa – o maior evento de cinema do mundo – dava a medida de um cara que não estava acreditando. Lembram-se de James Cagney em ‘Fúria Sanguinária’, de Walsh? Mamãe, estou no topo do mundo… Eu me lembrei.

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