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Cultura » Um plano roubado. Roubado?

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Luiz Carlos Merten

13 Abril 2008 | 17h24

Será que uma coisa que vi no Rio, na sexta-feira, me predispôs a gostar de ‘Um Plano Brilhante’? Naquele dia, eu havia marcado de me encontrar com um amigo em frente ao Teatro Municipal. Havia uma manifestação em frente ao prédio da Câmara Municipal, ali do lado. Aeroviários, principalmente aposentados, se queixavam de sua penúria, após o fechamento da Varig. Eles descontavam para um fundo de pensão que foi para o ralo, com os escombros da companhia. Quando comecei a prestar atenção, uma senhora falava. E ela contava tudo, abertamente, ao microfone, para quem quisesse ouvir (só que muita gente não quer ouvir nem ver). Uma história de dificuldade, com um tanto de ressentimento justificado. ‘Fiz tudo o que devia, trabalhei 30 e tantos anos e não merecia estar aqui.’ Pensei lá com meus botões o que leva uma pessoa a falar, a se abrir, com aquela franqueza. Afinal, aquilo não era um reality show, mas era um show da nossa realidade cotidiana, queiramos ou nâo. E ela devia falar para ver se mobilizava o coletivo, os indiferentes, os que passam, acham que não é com eles e que não têm nada a ver com aquilo. Ontem à noite fui ver ‘Um Plano Brlhante’. Foi engraçado. Cheguei no guichê e pedi – uma (entrada) para ‘Um Plano Roubado’. O cara até brincou. Disse que eu ia ter de optar – ‘Um Plano Brilhante’ ou ‘Um Beijo Roubado’. O filme conta a história desse velho faxineiro que bola um plano e nele envolve uma executiva que cansou de ser preterida nas promoções. Ambos vão lesar a maior empresa de diamantes do mundo. O começo do filme – um protesto frente à sede da empresa – remete ao final de ‘Diamante de Sangue’. Fiquei angustiado, coração na mão, assistindo a ‘Um Plano Brilhante’. Só depois pude pensar no por quê. Uma pergunta permeia o filme de Michael Radford e não é a óbvia – eles vão conseguir? É outra – por que? Os motivos da personagem de Demi Moore, a gente sabe de cara. Os de Michael Caine, só depois. O que isso tem a ver com o que vi no Rio? Vejam o filme, vocês. Acho Michael Radford um diretor muito interessante. Como todo mundo, gosto de ‘O Carteiro e o Poeta’ – só se fosse de pedra não me envolveria com o Massimo Troisi -,mas gosto mais ainda de ‘As Divas do Blue Iguana’. ‘O Carteiro’ (Il Postino) baseia-se no livro de Skármeta sobre a relação entre o poeta Pablo Neruda e um tímido carteiro italiano durante seu exílio em Amalfi (era Amalfi, não?). Era um filme muito escrito, sobre a importância da palavra. ‘As Divas’, pelo contrário, foi improvisado em parceria com as atrizes, que faziam dançarinas de strip-tease. Dois filmes diferentes no método, ambos expondo as mesmas preocupações, digamos, humanistas. Não estou seguro de que o pós-desfecho de ‘Um Plano Brilhante’, o finzinho, seja o melhor possível. Politicamente, pode ser considerado ‘reformista’, mas quem acredita em revolução, hoje em dia? Não li o texto, mas vi – alguém estava lendo no café da manhã, no hotel, no Rio – a chamada na concorrência, alguma coisa tipo ‘Michael Radford faz policial convencional’. Não concordo, e um crédito a mais tenho de conceder ao diretor – tudo bem, Michael Caine é quase sempre ótimo, mas Demi Moore…? Nunca fui muito fã dela nem a vi melhor. No início, estava implicando. Cada cena de Demi era uma roupa diferente. Sozinha, num fim de noite, ela se senta para uma taça de vinho, em casa, e está de brinco, colar e blusa, tudo combinando (e não é a mesma roupa que a personagem usava à tarde no escritório). A verba da produção foi toda nos figurinos da atriz, estava me indagando? Por que o desfile de modas? Lá pelas tantas comecei a achar que fazia sentido. Bom filme. Boa, além de bela, atriz.