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Cultura » Um outro mundo é possível

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Luiz Carlos Merten

09 Março 2007 | 15h59

Vou dar um tempo, e deixar que vocês leiam e comentem, antes que alguém reclame que eu posto demais. Mas antes, sempre tem um antes, quero relatar uma experiência que tive ontem. Havia marcado, com semanas de antecedência, um médico à tarde, na Paulista. O consultório é na altura do número 300. Quando cheguei ali, às três da tarde, estava o maior tumulto. Havia trio elétrico, cartazes anunciavam a marcha das mulheres (era o dia delas) unidas contra Bush e, sentados no chão, ou em escadas, eu vi aquela garotada escrevendo palavras de ordem em cartazes que logo em seguida ostentavam, como protesto. Tinha gente até de cara pintada! Foi como se eu tivesse entrado no túnel do tempo e ido parar lá em maio de 68. Na saída da consulta, a Paulista era uma praça de guerra, com confronto de policiais e manifestantes. Procurava a saída, mas cadê a saída? Todas as ruas estavam travadas e o jeito foi assistir de camarote. Sei que tudo isso, a visita, o protesto, a violência – houve feridos de ambos os lados – é polêmico. Quem estava no trânsito achava aquilo tudo o fim. Era mais um transtorno para os pobres motoristas paulistanos, que não precisam de Bush para enfrentar congestionamentos homéricos. É verdade! Mas, de repente, eu estava emocionado. A juventude atual é sempre acusada de alienada, de consumista, de não ter ideais. Tenho uma filha formada e tenho visto o processo de conscientização dela, ao longo do último ano, até por conta das dificuldades que enfrenta no mercado de trabalho. Não gosto quando vejo os velhos nostálgicos de Maio de 68, o ano que não termina nunca, lembrando como éramos melhores. Entendo que o protesto, em si mesmo, possa ser alvo de críticas, mas Bush, mesmo vivendo na bolha dele, deve estar acostumado a ser alvo de protestos. O importante, para mim, foi ver a participação. Morro, mas não desisto. O mundo mudou, ‘eles’ venceram, momentaneamente, mas não deixo de acreditar – nunca! – que um outro mundo seja, ou é, possível.