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Cultura » Um (ou o?) ano emblemático da academia

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Luiz Carlos Merten

06 Março 2010 | 10h40

Não, não é este ano, e a Academia é a de Hollywood. Cá estou em casa, neste sábado chuvoso, meio invernal. Há quanto? 30 horas? da entrega dos prêmios da Academia de Hollywood para os melhores de 2009, de tanto ouvir os comentários de vocês dizendo que Dustin Hoffman e Jon Voight, de ‘Perdidos na Noite’, mereciam mais do que John Wayne o Oscar que ele recebeu por ‘Bravura Indômita’, resolvi ir aos anais da academia para conferir quem eram os concorrentes daquele ano. Havia comprado em 2001 ou 2002 o ‘Academy Awards Handbook’, o mais completo guia do Oscar, que fornece inclusive indicações para apostadores. O livro está desatualizadoe não apenas pelo gap de oito/nove anos da edição que tenho, mas também pelas mudanças nas regras que ocorreram para 2010. Mas é muito interessante e eu nunca havia lido a regra número um, básica, que o autor credenciado pela academia, John Harkness, sugere (ou impões) aos apostadores. ‘Ignore seu gosto pessoal.’ Simple as that. Acho que meu problema com previsões do Oscar é que, durante muito tempo – toda uma vida -, eu nunca pensei em quem vai ganhar, mas quem eu gostaria que ganhasse e é muito diferente. Vocês já me deram um pau aqui no blog. Normalmente, escrevo – ‘Se o Oscar fosse honesto… – e tasco quem eu gostaria que ganhasse. Já ouvi muito que honesto, e democrático, o prêmio é, embora nem sempre seja justo. E o retrospecto do Oscar é favorável à academia em relação, por exemplo, à Academia Sueca, que outorga o Prêmio Nobel de Literatura. Posso reclamar que a Academia de Hollywood tenha ignorado Luchino Visconti, mas pense nos grandes, nos maiores. Ford, Kurosawa, Bergman, Fellini, Antonioni, Renoir, todos ganharam seus Oscars, mesmo que honorários, como no caso dos dois últimos. Compare com o Nobel. Borges, Graham Greene, Moravia e tantos outros grandes se cansaram de esperar, enquanto autores obscuros e até ilegíveis levavam a láurea. Mas, enfim, não me lembrava de que, em 1969, ‘Z’, de Costa Gavras, foi indicado duas vezes, a melhor filme e a melhor filme estrangeiro, recebendo sua estatueta na segunda categoria. Foi o ano em que Hanói Jane (Fonda) foi indicada pela primeira vez, e poderia/deveria ter ganhado, por ‘A Noite dos Desesperados’, mas a academia preferiu Maggie Smith e a sua ‘Primavera de Uma Solteirona’. John Wayne derrotou os jovens Hoffman e Voight e eu, se fosse votante, teria votado nele, porque Rooster Cogburn, de ‘Bravura Indômita’, é um personagem maravilhoso e o papel de toda uma vida, por melhores que sejam certas criações de Big John em clássicos de Ford, Howard Hawks e Otto Preminger (‘A Primeira Vitória’). Foi bom ter lido o capítulo sobre o Oscar de 69. ‘Perdidos da Noite’ foi o único filme classificado X a ganhar o prêmio. Naquela época, o X indicava simplesmente filme adulto e não pornô, como passou a ser quando os produtores de filmes de sexo explícito foram incorporados ao mainstream, em 1972. Mas o bacana da história foi o seguinte. Aquele foi o ano em que um cataclismo se abateu sobre Holywood. ‘Sem Destino’/Easy Rider iniciou uma nova fase da produção independente, e isso sem precisarmos levar em consideração o insdiscutível significado estético/político/musical/comportamental do filme, mas a academia preferiu colocar entre os cinco finalistas ‘Ana dos Mil Dias’, que havia sido um clamoroso fracasso de público e crítica, mas a empresa Universal bancou a campanha mais cara, até então – ‘For your consideration…’ -, e ‘Ana’ teve o maior número de indicações, incluindo melhor filme, ator (Burton) e atriz (Genevieve Bujold), mesmo que só tenha levado, como consolação, o Oscar de figurinos. O embate entre arte e indústria, entre mainstream e indies, está na essência do prêmio, que é o reconhecimento da maior indústria de entretenimento do mundo – aliás, ainda é? – aos seus talentos. O interessante, que descobri – não me lembrava -, é que a sincronicidade de Hollywood, abrindo-se para novos conceitos (mais adultos?) de cinema com ‘Midnight Cowboy’ e a indicação da ‘contestadora’ Jane, também fez de 1969 o último grande ano do western na academia. Tivemos depois o ‘Unforgiven’ (Os Imperdoáveis), de Clint Eastwood, mas foi rigorosamente a exceção. Não apenas John Wayne ganhou por ‘True Grit’, que ele definia como ‘meu papel mais fácil’, como ‘Butch Cassidy’ venceu em roteiro, trilha e canção (‘Raindrops Keep Fallin’ in My Head’) e Sam Peckinpah ganhou algumas indicações para seu poderoso ‘The Wild Bunch’ (Meu Ódio Será Sua Herança). Espero que essa viagem no tempo esteja sendo tão prazerosa para vocês quanto foi para mim.