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Luiz Carlos Merten

24 Abril 2007 | 11h47

Estou me sentindo como a Sally Field – Deus me livre! – quando recebeu o segundo Oscar, por Um Lugar no Coração, e fez aquele discurso patético de agradecimento. ‘Vocês me amam!’, ela disse. E chorou. Enfim, cada um sabe de suas carências. Mas olhei outro dia aqui no blog, e não devo ter olhado direito. Não vi comentário nenhum de um monte de coisas que havia postado. Pensei comigo – nada do que escrevo interessa a ninguém. Os leitores não me amam! Vi agora esse monte de comentários sobre vários temas e assuntos. Vocês me amam! (E se não amam ficam comigo, o que é bom, de qualquer maneira, para estimular a polêmica.) Agradeço as informações sobre O Jogo da Verdade, adorei os comentários sobre Jack Nicholson, Romy Schneider e Kathleen Turner – sim, aquele tal de Wachavsky é um dos píores filmes já feitos -, mas quero falar agora sobre o que o Sandoval escreveu sobre Rocco. A cena que ele achou terrível, a da explosão familiar quando Rosário Parondi chora abraçada a Simone e Rocco se agarra ao irmão como quem afunda -, é um monumento da arte cinematográfica. Sei que vou perder leitores, mas cenas influentes como a da escadaria de Odessa ou a do assassinato de Marion Crane na ducha, não me dizem tanto. Provocam uma admiração estética, mas não este sentimento visceral, de que estou entrando em áreas limítrofes da experiência humana. A cena de Psicose até que provoca um pouco dessa sensação porque, afinal, é uma coisa trágica. Marion estava se banhando em busca de uma purificação, para iniciar o caminho da volta que não vai ocorrer e isso é uma coisa que sempre me comove, nas 30 vezes que devo ter visto o filme do Hitchcock. Mas a cena de Rocco é insuperável. Acho que já contei, mas conto de novo. Durante anos, eu martelei a cabeça dos meus colegas do Estado falando de Rocco. O filme havia saído em vídeo pela Globo, mas era a versão remontada. As pessoas conheciam Rocco pelos meus olhos. Aí, o André Sturm, da Pandora, trouxe Rocco para os cinemas. Saímos todos da redação, um grande grupo, uma noite diretamente para o Vitrine. Na tal cena, os meus colegas todos, não agüentando a tensão, rebentaram numa reação histérica de rir. Eu chorava aos prantos e aquela gente toda rindo. Cambada de fdp, vocês não sabem o que é arte!, explodi. Sobre a dublagem em Visconti, com a qual ele conviveu nos maiores momentos de sua carreira – já que sempre escolheu os atores que queria, sem se preocupar com a nacionalidade nem com a língua em que o filme seria falado -, acho que também já contei. Certa vez, entrevistei James Ivory em Veneza. Estávamos no grande salão do Hotel de Bains e eu, ingenuamente, observei que olhando para aquela porta parecia que ia ver entrar a Silvana Mangano de Morte em Veneza, que nem é um dos meus Visconti favoritos, mas que é melhor do que qualquer filme do Ivory que eu conheça. O cara surtou. Descobri depois que ele sempre odiou Visconti e o maior problema do Ivory é que muitos críticos costumavam compará-lo, por seu detalhismo e gosto pelas reconstituições de época, ao grande diretor italiano. Discutimos. O Ivory detratou o Visconti pela dublagem nos filmes dele. Disse que era tudo sheet, embora eu não tenha mais certeza se ele usou exatamente essa palavra (m…). Eu fiquei uma fera. Nunca briguei assim com um entrevistado. Aliás, briguei uma vez, com o Sean Connery, a quem admiro e que fez um dos filmes cults da minha vida – Ver-te-ei no Inferno (The Molly Maguires), do Martin Ritt -, mas que naquele dia resolveu ser antipático além da conta. (A entrevista era sobre Armadilha, que ele desembestou de dizer que era um thriller hitcockiano tão bom, senão melhor que Ladrão de Casaca.) Mas Sandoval, se eu já briguei com o Ivory por causa do Rocco… Não, não vou brigar contigo. Só vou dar de novo o conselho que já te deram. Revê o filme, Sandoval. Relaxa e…