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Luiz Carlos Merten

04 Junho 2009 | 16h29

Havia falado ontem com Ana Luiza Müller, que me relatou o sucesso do documentário sobre Wilson Simonal, no Rio, onde o filme virou um fenômeno. Comentei o assunto, à noite, com Ricardo Dias e Paulo Vanzolini aos quais entrevistei por conta do belo documentário ‘Um Homem de Moral’, que estreia amanhã. Toquei no assunto justamente porque o cinema brasileiro descobriu o filão dos documentários musicais e eles não param de surgir, um atrás do outro. Ricardo Dias acha que o que deflagrou o processo foi ‘Vinicius’, do Miguel Faria Jr. Fiquei muito impressionado com ‘Simonal, Ninguém Sabe o Duro Que Dei’, quando vi o filme Festival do Rio, no ano passado. Me pareceu um resgate extraordinário de uma figura que teria sido massacrada por seu sucesso, por ser negro etc. Vanzolini me jogou um balde de água fria. Confirmou que Simonal era o maior dedo duro e disse com todas as letras que ele se gabava de haver entregado muita gente boa aos militares, na época da ditadura. Não consegui encaixar a declaração polêmica no meu texto no ‘Caderno 2’, mas vocês poderão checá-la amanhã na TV Estado, que gravou a entrevista e vai colocar um compacto de 6 minutos no ar, encerrando justamente com a fala de Vanzolinisobre Simona. Isso pode reacender uma polêmica acalorada sobre o colaboracionismo na época da ditadura. É um assunto que sempre gera controvérsia, e não apenas no Brasil. O colaboracionismo dos franceses com os nazistas, sob Pétain; o depoimento de Elia Kazan ao Comitê de Atividades Anti-Americanas do Senado dos EUA etc são temas que não se esgotam. E não deixem de ver ‘Um Homem de Moral’. Achei o filme muito legal. Ricardo Dias sempre foi ligado a Vanzolin, que era amigo do pai dele. A proximidade favorece o retrato íntimo que ele traça, resgatando o compositor, o extraordinário leterista, e o cientista, que Vanzolin também é. Aliás, Vanzolini diz que a música sempre foi hobby para ele. Ele não compunha para ganhar dinheiro. Sua profissão era – é – zoólogo. E ele volta a afirmar que não aguenta mais ser identificado por seu maior sucesso. Vanzolini cansou de ‘Ronda’, mas nós, que amamos a música, nunca vamos desistir dela. O próprio autor, pressionado, admite que ali dentro existem alguns versos – ‘bebendo com outras mulheres, rolando um dadinho, jogando bilhar’ – que visualizam situações como se a música fosse mesmo (e não é?) uma janela aberta para um estilo (boêmio?) de vida. Não percam – o filme nem o especial da TV Estado.