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Luiz Carlos Merten

20 Março 2009 | 15h10

Me perdi na jogada. Havia visto que o Cineclube HSBC Belas Artes ia exibir o ‘Possessão’, de Andrzej Zulawski, com Isabelle Adjani, que vi na Polônia, no ano passado, e terminei não postando nada, talvez porque o filme, pelo qual tinha muita expectativa, me decepcionou bastante. Mas perdi outras coisas que teriam sido muito bacanas de postar (e discutir). Antes de ‘Possessão’, em sua homenagem a Zulawski, o Cineclube mostrou ‘O Importante É Amar’ e, além do próprio filme, teria sido maravilhoso evocar o mistério e fascínio de Ronmy Schneider. Na sequência, o Cineclube emendou Zulawski com um Kieslowski, ‘Não Matarás’, que eu amo, e a partir de hoje exibe outro, ‘Não Amarás’, que me parece melhor ainda. Ambos integram a série do ‘Decálogo’, mas ganharam versões mais longas para cinema. Fui ao arquivo do ‘Estado’, atrás da pasta de Kieslowski para conferir o nome da atriz Grazyna Szapolowska. Encontrei um texto de Edmar Pereira, datado de 17 de janeiro de 1991, no ‘Jornal da Tarde’. Transcrevo o começo. ‘É mais ou menos como se Ingmar Bergman tivesse roubado o roteiro de ‘Janela Indiscreta’, de Alfred Hitchcock. Um adolescente polonês, carteiro, vivendo com a mãe, descobre a volúpia do voyeurismo quando começa a observar a bela vizinha já madura que vive no apartamento em frente. Mas não se trata de uma história policial. Nesta love story diferente de todas as histórias de amor até hoje contadas pelo cinema, toda a vertigenm é existencial, todos os mergulhos são na direção interior. E todo o intenso, crispado e doloroso lirismo do cineasta Krszystof Kieslowski em ‘Não Amaras’ nasce de unma atenta e rigorosa observação dos protagonistas. Um olhar profundo, a meio caminho entre a impessoalidade eficiente do documentário e a adesão de quem trata personagens como extensões de si mesmo.’ Bonito, não? Edmar Pereira escrevia muito bem.
Vou abrir parágrafo, mas não se entusiasmem muito. É só aqui e agora. Já contei que tive o privilégio de entrevistar Kieslowski. Duas vezes, a primeira em Veneza, quando ele mostrou ‘A Liberdade É Azul’ e anunciou que pararia com o cinema – foi também minha primeira entrevista com Juliette Binoche -, após a trilogia das cores, e a segunda, em Cannes, quando apresentou ‘A Fraternidade É Vermelha’. Intimista, metafísico, Kieslowski foi o cineasta que quis radiografar a alma. A gente usa essas frases que parecem de efeito, mas são verdadeiras. ‘Não Amarás’, como ‘Janela Indiscreta’, é um filme sobre o olhar e ambos são metáforas sobre o próprio cinema. Tomek, o garoto, se limita a observar. Age com o olhar. E ele quase não fala. Emudece de vez quando fica frente a frente com Magdalena, a mulher que preenche suas fantasias. Tomek, depois de se declarar a Magdalena, faz uma escolha radical e resolve que não quer ver mais nada do mundo. As posições aí se invertem e a mulher pega um binóculo para… Existem filmes que ficam a gente. ‘Não Amarás’ ficou comigo. Até hoje. A atriz – Grazyna Szapolowska – é tudo de bom (e belo). Em dois momentos, Tomek cruza com um homenzinho estranho, de sobretudo branco e mala na mão. Ele aparece em momentos decisivos de todo o ‘Decálogo’, a série que o grande diretor polonês fez para TV, inspirado nos Dez Mandamentos e que lhe permite fazer o seu Dostoievski. O ‘Decálogo’ é o Crime e Castigo’ de Kieslowski. Há 19 anos, ‘Não Amarás’ recebeu o prêmio da crítica na Mostra de São Paulo. acho que não vou resistir. Quero rever ‘Não Amarás’. Gostaria de ter deixado vocês com o mesmo desejo pelo filme. Espero que a gente se encontre no Cineclube HSBC Belas Artes.