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Cultura » Um funeral de múltiplos significados

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Luiz Carlos Merten

04 Julho 2009 | 18h57

Assisti hoje pela manhã a ‘Imitação da Vida’, de Douglas Sirk. Havia-me levantado, tinha uma cabine na Reserva Cultural. Resolvi dar uma zapeada na TV paga. Estava começando o ‘Imitation of Life’ e eu não resisti. Tem gente que não gosta, mas eu sou maluco pelo último filme do Douglas Sirk. Danny Peary, em seu ‘Guide for the Film Fanatic’, faz 1001 restrições ao filme. Diz que Sirk falsifica a questão racial, que Lana Turner e a filha (Sandra Dee) tratam o tempo todo Juanita Moore como criada e que a própria Juanita, sempre serviçal, nunca se preocupa em dar lições de dignidade à filha (Susan Kohner) que quer ser branca, ensinando-a a ter orgulho de ser negra, por exemplo. Eu não consigo enxergar o filme desse jeito e o vejo como um drama social mais do que como um melodrama. Jean Tulard diz que talvez seja menos bem-feito do que outros filmes mais pessoais de Sirk – e ele cita ‘Palavras ao Vento’ e ‘Almas Maculadas’, mas eu acho que o diretor, conscientemente ou não, vai fundo na questão racial. Lacan era louco por Sirk e estudava seus melodramas como espelhos nos quais se projetava a sociedade norte-americana. Juanita é aquilo que se chamava a ‘negra de alma branca’ e, no desfecho, seu funeral é o a adeus a muitas coisas – ao cinema que Sirk estava abandonando e mais do que isso. Sirk foi um cineasta de formação clássica, que filmava melodramas como se fossem (e eram) representações da tragédia grega, em que tudo se passa em família. No livro com a entrevista que deu a Jon Halliday, ele cita Eurípedes, em especial o último coro de ‘Alcestis’ (‘As manifestações dos deuses ocorrem de muitas formas/levam muitos assuntos a um final feliz/O que pensávamos que ia acontecer às vezes não acontece/o impossível não é impossível para os que acreditam/e esta é a maneira como as coisas ocorrem aqui e agora.’).Sirk também explica por que resolveu parar de filmar. ‘Imitação da Vida’ foi um grande sucesso de público, seu maior sucesso em Hollywood e ele poderia ter estabelecido um patamar raro no cinema norte-americano, mas o diretor ficou doente e precisou de um tempo. Nessa parada, ele descobriu que o mundo estava se transformando e com ele o cinema – a década de 60, os anos que mudaram tudo. A própria ‘América’ ia arder nos verões de fogo, por causa da questão racial. Tudo isso ainda estava por vir, mas aquele funeral já é um fecho, um adeus, e é o que fica com a gente depois de assistir a ‘Imitação da Vida’. De todos os grandes diretores que pensaram a ‘America’, acho que Sirk foi um dos mais racionais e visionários. Em 1960, ele já estava enterrando o sonho americano, pelo menos é a sensação que tenho diante do seu filme (que o SBT, numa certa época tendo o filme em seu acervo, rebatizou como ‘Odeio Minha Mãe’, de certo para forçar a barra). O filme terminou e eu corri para a Reserva, onde assisti ao documentário de Nelson Hoineff sobre Chacrinha, que me causou uma impressão muito funda, mas vou deixar o Chacrinha para depois.