Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Um estranho casal

Cultura

Luiz Carlos Merten

18 Dezembro 2009 | 00h02

Havia gostado bastante de ‘RocknRolla’, o longa anterior do ex de Madonna, Guy Ritchie, e assim fui cheio de expectativa para a cabine de imprensa de seu ‘Sherlock Holmes’, realizada hoje de manhã. O filme estreia no Brasil em 8 de janeiro. Corre o risco de desagradar aos fãs de carteirinha do mestre da dedução criado pelo escritor Sir Arthur Conan Doyle. Eles querem fidelidade absoluta à letra dos livros e, neste sentido, já não haviam assimilado muito bem as liberdades que Billy Wilder tomou com o mito, há quase 40 anos, em sua versão de ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’. É verdade que, diante de Sherlock, o proprio Wilder preferiu exercer sua ironia mais sutil, ao invés da sátira demolidora, também revelando uma veia hitchcockiana que a mim seduziu completamente. Guy Ritchie vai mais longe do que Wilder nas liberdades e nem a clássica indumentária do personagem ele respeita, embora lá estejam o cachimbo, o boné, a écharpe e a lente de aumento, mas não exatamente como estamos acostumados a vê-los. No cinema, foram 127 aventuras, incluindo a de Wilder, mas esses são dados de 1970. Se formos à internet, com certeza veremos que Sherlock deve ter vivido outras vidas – e aventuras – na tela. A versão de Gene Wilder, o ator fetiche de Mel Brooks, é posterior e nela o herói é Myron, o irmão mais esperto de Sherlock. O outro Wilder foi mais demolidor, mas, tirando o romantismo meio gótico de ‘A Vida Íntima…’, meu Sherlock favorito é o de Terence Fisher em ‘O Cão dos Baskervilles’, com Peter Cushing, em… Quando mesmo? 1959? São 50 anos, já! Mas eu, que sou leitor ávido de Sherlock, e de Hércules Poirot e Miss Marple – agora mesmo, só preciso terminar algumas leituras já iniciadas para me atracar com a nova (re)edição de ‘Um Estudo em Vermelho’, que já devo ter lido umas 30 vezes -, quero dizer que as inovações de Guy Ritchie não me incomodaram nem um pouco e, pelo contrário, me diverti muitíssimo. Adoro aquela maneira que ele tem de construir/desconstruir as cenas de ação. Por exemplo, na luta de boxe, Sherlock planeja como vai derrubar seu oponente. A cena é mostrada em detalhes e, depois, em tempo real, tão rapidamente que o espectador não consegue mais conferir como tudo ocorreu. Isso já estava não apenas em ‘RocknRolla’, mas em outros filmes de Ritchie. Concordo com Jotabê Medeiros – a melhor cena é a do restaurante, quando Sherlock janta com Watson e Mary, ou melhor, quando provoca a reação da namorada do amigo e a reunião vai pro brejo. Gosto bastante de Rachel McAdams, que faz Irene Adler, mas o que faz a graça do filme é a química perfeita entre Robert Downey Jr. e Jude Law. Sabem quem me lembraram? Jack Lemmon e Walter Matthau em ‘Um Estranho Casal’, de Neil Saks, de 1968. Sherlock e Watson, um estranho casal? É por aí, mas não necessariamente com um subtexto homossexual. Já sei que Ritchie trabalha atualmente numa ‘Sherlock Holmes Untittled Sequel’, que poderá ter Brad Pitt na pele do vilão, como Moriarty. Torço para que dê certo.