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Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2010 | 08h44

Eduardo Coutinho lançou ontem sua bomba na 34ª Mostra. O ‘velho’ chegou envolto no seu cachecol, ele sempre me impressiona com seu físico franzino, parecendo que precisa de cuidados. Nem sabia de seu filme ‘Um Dia na Vida’. Quando dei uma geral na programação da Mostra, não o notei e, na terça, ao procurar os filmes de quinta, para o ‘Caderno 2’ –, tudo bem que eu estava direcionado para falar de Sergei Loznitsa –, simplesmente não vi que havia esse ‘Dia’. Ainda bem que ontem, Ana Luiza Müller me ligou a caminho do aeroporto, no Rio – ela estava indo para Florianópolis, para o evento da Imagem Filmes –, e meio que me intimou a ver o filme. É curioso, mas hesito cada vez mais em usar a definição de documentário para Coutinho, talvez porque o próprio ‘Cabra Marcado para Morrer’ me pareça um híbrido e o território do autor, cada vez mais, seja essa borda entre ficção e documentário. Achei muito sugestivo que Coutinho estivesse mostrando um filme que nem sabe se é filme. Antes da sessão, ele disse que seria a única exibição pública de ‘Um Dia na Vida’. Estava escrevendo errado, ‘Um Dia Qualquer’, e na verdade é isso. (‘Un Giorno nella Vita’ é um filme italiano, de Alessandro Blasetti, de 1946 ou 47, sobre um convento de freiras invadido por partisans, que as violentam.) Num determinado dia, teria de pesquisar para saber exatamente quando foi, Coutinho gravou 19 horas de programação da TV aberta e editou tudo isso em 90 minutos. A projeção foi precedida de um letreiro ‘Gravação feita como pesquisa para um filme futuro’. Depois, houve debate – de Coutinho com Jorge Furtado e Eduardo Escorel. Jorge disse coisas interessantes sobre a TV – que conhece de dentro –, misturou as citações de Luiz Fernando Verissimo e Jorge Luis Borges, mas, no final, nem ele nem Escorel conseguiram colocar um foco na discussão. Coutinho, o documentarista, é acima de tudo Coutinho, o entrevistador. ‘Um Dia na Vida’ muda o eixo, o próprio método. Coutinho, o montador. Ele edita trechos  – de Ana Maria Braga, Márcia, Chavez, de um cirurgião brasileiro que faz sucesso nos EUA, mas principalmente seleciona imagens de consumismo e de religião. Pastores vendem Deus como outros vendem não importa o quê. Colocando em xeque a civilização da imagem – Jorge Furtado citou uma de minhas Bíblias, ‘Vida, o Filme’, de Neil Gabler –, ele reafirmou a força da palavra em seu cinema. Daquela avalanche de imagens e sons – muito som e fúria significando nada, como dizia o velho Shakespeare, revisto por Faulkner –, emerge um tema, a mulher. Tratada como flor por Du Moscovis numa novela global, ela é modelada pelo cirurgião – se fosse para ser comédia, o cara não seria mais hilário –, apanha no meio da rua e aí entra uma cena de Wagner Montes, que virou político no Rio, explicando que não é preciso bater em mulher, basta imobilizar seu braço (e aí ele explicou como fazer). Fico pensando no infeliz do leitor do blog que, na estreia de ‘Lula, o Filho do Brasil’, viu no trágico acidente do diretor Fábio Barreto a mão de Deus, cansado de tanta iniquidade. Tirando o fato de que gosto do filme e o seu ‘fracasso’ não está contribuindo em nada para evitar a presumível vitória da candidata do presidente – ou seja, como dizia o Fábio, o problema para a oposição era Lula, não o filme dele –, pergunto-me onde foi parar o Deus vingativo do leitor, que foi tão duro com Fábio, e agora permite aos pastores e a Wagner (o Montes, não o Moura) dizerem tanta m… impunemente. Coutinho não sabe o que fez. Eu ainda não formei uma opinião sobre o que vi (e sobre a possível mudança de rumos no projeto de cinema dele). Mas gostei de ter visto ‘Um Dia na Vida’. Espero que não tenha sido a primeira e única exibição pública do filme. Mesmo que, eventualmente, venha a abandonar o filme, Coutinho deveria doá-lo para universidades. Estudantes de comunicação, semiologia, marketing e psicologia vão encontrar ali um material riquíssimo.