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Luiz Carlos Merten

17 Dezembro 2008 | 00h16

Não sei se estou acrescentando o último post de terrça-feira ou o primeiro de quarta. Acho que estou indo com muita sede ao poste. Faz pouco mais de um mês que fiz minha cirurgia – em 13 de novembro – e já estou querendo abraçar o mundo. Mas são oportunidades imperdíveis. Já voltei aos filmes na TV do ‘Caderno 2’ e tenho feito críticas e entrevistas. Hoje (terça) saiu um texto meu sobre ‘Capitu’, avaliando a microssérie de Luiz Fernando Carvalho. Também entrevistei Miguel Kohan, diretor de ‘Café dos Maestros’, e Gustavo Santaolalla, idealizador do projeto, com quem tive um papo maravilhoso. Gustavo conversou comigo (pelo telefone) de Mendoza, cidade argentina famosa pelos vinhedos, onde ele possui uma ‘finca’ (e banca o Coppola, como vitivinicultor). Estive em Mendoza no começo dos anos 70 – a maioria de vocês talvez não fosse nem nascida -, em companhia de minha ex-mulher, Dóris, mãe da Lúcia. Fizemos a travessia da Cordilheira dos Andes num carro alugado e foi uma das viagens mais lindas da minha vida. O mês era abril, por aí, e Mendoza é uma cidade superarborizada, com ruas que são verdadeiros túneis verdes, só que naquela época estavam amarelecidos pelo outono. Comentei isso com Gustavo e ele me disse que o outono em Mendoza, aos pés da cordilheira, é uma das exeriências mais fantásticas do mundo. Conversamos sobre suas trilhas e sobre Oscar. Apesar do sucesso e dos prêmios, ele se define como um outsider e gosta d trabakhar com diretores como Ang Lee, Walter Salles e Alejasndro González-Iñárritu porque respeitam seu método – ele é o tipo do compositor que adora compor antes, a partir do roteiro e conversas com os autores, não sobre as imagens filmadas. Logicamente que o assunto foi também tango, tema de ‘Café dos Maestros’. Alguns de vocês talvez já tenham visto o filme no Festival do Rio, ou na Mostra de São Paulo. Gostei muito, mas acho que sou suspeito. Amo a teatralidade e o erotismo do tango, em todas as suas manifestações, desde os primitivos de Carlos Gardel, em que a guitarra precedia o acordeón, até os experimentos mais sofisticados de Astor Piazzola – cuja reunión cumbre com Gerry Mulligan é um dos discos, agora CDs, da minha vida. Acho que não existe nada musicalmente mais belo nem mais intenso do que ‘Años de Soledad’, se bem que, no mesmo disco, ‘Adiós Nonino’ também seja de arrepiar. Podia ter ficado muito mais tempo conversando com Santaolalla, sobre Bajofondo e os ‘maestros’. Aguardem o filme na semana que vem, como presente de Natal. Na seqüência, gravei, para a TV Cultura, uma entrevista sobre o ciclo de Bernardo Bertolucci – volto a ele amanhã (quarta) – e fui entrevistar Daniel Filho, Glória Pires – que está morando em Paris – e Tony Ramos, por ‘Se Eu Fosse Você 2’, que estréia em 2 de janeiro. Sei que vocês torcem o nariz para o Daniel – estética televisiva e coisa e tal -, mas tenho o maior respeito por ele. Ouso dizer que ‘Se Eu Fosse Você 2’ é melhor que o 1, embora isso não represente muito, ou não represente nada, para os coleguinhas. Daniel não pára. Ainda não lançou o que seria, ou é, seu novo filme, e já tem outro pronto – a adaptação da peça ‘Novas Diretrizes em Tempos de Paz’, de Bosco Brasil, que eu amo, com roteiro do próprio Bosco e Tony Ramos e Dan Stulbach no elenco – e se prepara para iniciar, em março, um projeto com o qual sonha há anos. Daniel vai filmar a vida de Chico Xavier. Considerando-se que a cinebiografia de Bezerra de Menezes mostrou que há público para esse tipo de produto, imagino que o filme sobre o médium deverá arrebentar. Ouvi alguém falar em oportunismo? Há quase uma década Daniel Filho fala neste filme, que terá três atores no papel de Chico Xavier (um deles será Nelson Xavier). Tudo bem que vocês queiram, quem sabe, discutir a contribuição de Daniel Filho para o cinema, como diretor, mas, para o bem e para o mal, Boni e ele inventaram o formato de TV que deu certo no Brasil. A história da telenovela passa por Daniel Filho e pelos clássicos de Hollywood que fizeram sua cabeça – incluindo, claro, a matriz de todos os melodramas, ‘Stella Dallas’ (Mãe Redentora), de King Vidor. E, como ator, ele tem uma bela carreira no cinema, em filmes de Nelson Pereira dos Santos (‘O Boca de Ouro’), Ruy Guerra (‘Os Cafajestes’) e uma boa dezena, ou quase, de trabalhos com Cacá Diegues, entre eles ‘Chuvas de Verão’, que é meu preferido, entre todos os filmes do diretor. Sinceramente, creio que esse é um dos privilégios da minha profissão. Vou a festivais, sou pago para ver filmes – e emitir minha opinião -, mas o melhor de tudo é essa oportunidade sempre renovada de conhecer pessoas, de entrevistar todo tipo de artistas. Glória Pires me falou de sua experiência parisiense, da vida no 8ème arrondissement. Tony Ramos me falou da nova novela de Glória Perez, que gravou na Índia – praticamente sua participação inteira – e me falou da sua admiração por filmes como ‘O Cheiro do Ralo’ e ‘Amarelo Manga’. Falou com conhecimento de causa, com admiração sincera. Já é meia-noite, chega por hoje, mas foi um dia como gosto.