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“Um de Nós Morrerá’

Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2008 | 10h13

Celdani me pede que fale um pouco sobre ‘Um de Nós Morrerá’ e a proposta é irrecusável, pois Arthur Penn sempre foi um de meus autores de cabeceira, como dizem os franceses. Rafael também me pede que comente o lançamento em DVD de ‘O Último Pôr-do-Sol’, de Robert Aldrich. Penn, Aldrich! Teremos assunto para um dia inteiro, mas ainda tem o Cssavetes na Sessão Cinéfila – ou Cineclube? sempre me confundo – do Espaço Unibanco. Qual é mesmo o Cassavetes? ‘Opening Night’? Começamos por quem? Penn? OK.
Arthur Penn era um diretor vindo da TV, que fazia sua estréia no cinema com ‘The Left-Handed Gun’. Ele pertencia à geração de Sidney Lumet, John Frankenheimer etc. Num certo sentido, fez a estréia mais asmbiciosa de todos e o desenvolvimento futuro de sua obra fez dele o maior diretor de sua geração. Nenhum, como Penn, foi tão duro e crítico com a ‘América’, dirigindo sua câmera para as entranhas de um país, ou de uma cultura, que não consegue resolver seus conflitos senão por meio da violência. Não admira que tenha sido silenciado pelo, como se diz, ‘sisrtema’, tomando por base o fracasso de público de ‘Amigos para Sempre’, no começo dos anos 80, numa época em que a estética dos efeitos se instalava no cinemão e o enfoque adulto de Penn virava contracorrente. ‘Le Left-Handed Gun’, ou ‘Le Gaucheur’, como Maurício Gomes Leite se referia ao filme, preferindo, por afinidades culturais, seu titulo em francês, quer dizer ‘O Canhoto’. O filme conta a história de Billy the Kid, tal como Penn, com roteiro do futuro diretor Leslie Stevens, se baseou na teleplay ‘The Death of Blly the Kid’, de Gore Vidal. Paul Newman é quem faz o papel, em princípio de carreira, numa época em que ainda estava muito marcado pelo ‘Método’, o estilo de representação que Lee Strasberg adaptou do russo Stanislawski e divulgou por meio do Actor’s Studio. O jovem Newman atuava numa histeria imensa e muitos críticos acham, por isso, que o filme ficou datado, mas eu o revi há alguns anos, num cinema de arte em Paris, e fiquei chapado. O próprio Penn avalia que, no tempo de ‘Um de Nós Morrerá’, estava fazendo um cinema psicanalítico, fazendo a relação entre o revólver e o pênis. Mais do que o lendário pistoleiro, Billy the Kid é, para ele, o primeiro de seus rebeldes e um típico herói sem causa como aqueles ue Hollywood celebrava nos anos 50, com Marlon Brando ou James Dean (que acabara de morrer, em 1956). O interesssante é que Newman já havia sido Billy the Kid na TV, numa versão de 1955 chamada simplesmente ‘Billy’. O personagem se ressente da ausência da figura paterna. Acha um pai substituto, um rancheiro que é morto opor quatro pistoleiros. Billy persegue e mata dois. Para matar o terceiro, ele invade – e estraga – o casamento de seu amigo Pat Garret. Pat, que seria algo como um irmão mais velho, também caça Billy para se vingar. A esta altura, a fama do pistoleiro cresceu e sua trilha é seguida por um escritor, Hud Hatfield, que quer transformá-lo em mito. Todo Arthur Penn já está aí – o enfoque moderno, psicanalítico, o mito de Prometeu desenvolvido face à lenda e à história (real). ‘Um de Nós Morrerá’ já contém os gérmens de ‘Bonnie & Clyde’, de 1967, que recebeu no Brasil o título de ‘Uma Rajada de Balas’. Não sou eu que digo – vou repetir o que afirma Danny Peary em seu ‘Guide for he Film Fanatic’. Ele diz, e eu acresdito, que o audacioso trabalho de câmera de Penn foi decivido para Marlon Brando em ‘A Face Oculta’ e Sam Peckinpah em ‘Pistoleiros do Entardecer’, dois dos westerns mais influentes do começo dos anos 60. Confesso que me emocionei muito com o desfecho de ‘Um de Nós Morrerá’, quando revi o filme. É sabido, pois faz parte da lenda, que Billy foi morto por Pat Garret. Na versão de Penn, a consciência trágica faz da morte um suicídio. Acredita, Celdani, é um p… filme.