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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2008 | 12h35

Havia uma garota chorando e sendo consolada pelo namorado (ou marido, não sei) na última fileira de poltronas do HSBC Belas Artes, quando saí ontem da sessão das 17h30, a única em que ‘Um Crime Americano’ ainda está sendo exibido no conjunto de salas. Eu confesso que olhei para ela – não quis encarar, para não ser indelicado – e aquilo aumentou meu mal-estar. Juro que foi um filme que me deixou com vontade de vomitar. A história das duas garotas que os pais deixam aos cuidados de uma estranha é real. Ocorreu em Indiana, nos EUA, nos anos 60. As duas sofrem todo tipo de abuso e uma delas é torturada até o limite. Logo no começo há um letreiro que adverte – o diretor Tommy O’Haver baseou-se no julgamento da torturadora. O Estado de Indiana versus Gertrude não-sei-o-quê, a personagem de Catherine Keener. Ela é uma mulher doente, instável emocionalmente, carente de sexo, de dinheiro, de tudo e, ainda por cima, com aquele monte de filhos para criar. Seria fácil transformar uma personagem dessas, com tudo o que ela faz, num monstro, mas o diretor O’Haver e a atriz, sempre ótima, mantêm essa mulher no registro do humano, o que a torna mais assustadora. Mais até do que um caso de polícia, Gertie é um caso de internação. Como sua mente enferma não é detectada nem analisada a tempo, cria-se aquele horror todo. Em 1965, quando Gertrude estava cometendo todos aqueles atos bárbaros, Richard Fleischer estava iniciando o que eu considero uma memorável série de filmes, embora goste mesmo só do primeiro – ‘O Homem Que Odiava as Mulheres’ (The Boston Strangler), com Tony Curtis -, tratando justamente disso, sobre o abismo das mentes torturadas e enfermas. No cinema de Fleischer, o choque é entre esses doentes que sção criminosos e as instituições que os punem. O’Haver não cria suspense, não estimula a emoção da gente. Ele expõe aquelas sessões de tortura com frieza, porque só assim consegue chegar ao seu tema. Por que tantas pessoas foram coniventes e até solidárias com aquela barbárie? Os vizinhos, que ouvem os gritos vindos da casa, não quetrem se meter e a tortura vira espetáculo de circo. A garota torna-se uma freak e os próprios colegas de aula vão lá e lhe aplicam mais um golpe, comno se fosse pior que bicho. Aliás, nem bicho merece ser tratado assim e, para isso, existem as sociedades protetoras de animais. Questionados no tribunal, os jovens só dizem que não sabem porque fizeram aquilo. É uma teia de invejas, e ressentimentos, e mal-entendidos que cega as pessoas e elas não conseguem visualizar a entensão do mal que praticam. Agora já estou falando de outro filme, do ‘Ensaio sobre a Cegueira’, de Fernando Meirelles, que é sobre isso, sobre o ver sem enxergar. De volta a ‘Um Crime Americano’, achei o filme terrível, mas na verdade não sei se gostei. E não foi só pelo mal-estar, por ter sido uma das experiências mais desagradáveis que tive no cinema, ultimamente. Tem um momento, ali perto do fim, em que parece que ‘Um Crime Americano’, apesar de tudo, vai ter um happy end. Na verdade, como vamos perceber depois, é um recurso do diretor para tornar a narrativa da garota ainda mais dilacerante e depressiva na sua tristeza, quando ela fala nos desígnios de Deus e admite, como vítima, para si mesma, que não sabe que desígnios são esses. Não me agradou o recurso. Achei uma nota em falso – o toque artístico, autoral – em relação à letra fria dos autos. Saí do cinema desnorteado, buscando, dentro de mim, aquela forma de consolo que Van Gogh, na sua carta ao irmão, Theo, diz que deve ser a função da arte.