Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Um certo perfume de Viscionti

Cultura

Luiz Carlos Merten

24 Agosto 2007 | 10h38

Está na capa de hoje do Caderno 2. Demos tratamento vip a Santiago, o novo documentário de João Moreira Salles. Fiz uma entrevista com o diretor, Luiz Zanin Oricchio assina a crítica. Dib Carneiro Neto fez uma bela edição. O filme merece. Santiago possui características diferenciadas na nova safra de documentários brasileiros. Aliás, não só de documentários. Filmes como o de João e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, trafegam nas bordas do documentário e da ficção, e este diálogo (ou oposição) ocupa o centro de Jogo de Cena, o novo Coutinho, maravilhoso, que vi em Gramado. Entrevistei o João e ele me pediu que fosse por e-mail. Preferia ter feito pessoalmente ou, pelo menos, por telefone, mas enviei as perguntas. João foi denso, profundo. Acho que é daquelas entrevistas que realmente merecem ser lidas. À tarde, Anna Luiza Müller, que faz a assessoria da Videofilmes, me ligou para dizer que João estava da redação da revista Piauí. Poderia ligar, se quisesse. Liguei, claro. João é tão cioso da sua intimidade que eu espero não estar cometendo nenhuma indiscrição. Mas ele me disse que o filme é tão pessoal – antes, João filmava os outros; “Santiago é sobre mim”, confessou –, que tem dificuldade para tratar do assunto de forma objetiva. Preferiu responder por escrito, e me confirmou o que intuí. Todas as respostas foram exclusivas, coisas que ele nunca havia falado sobre o Santiago. Coloquei uma pergunta sobre o perfume viscontiano que o filme tem, para mim. A resposta, a ponte que João faz com O Leopardo, me fez viajar. Ia só dizer que vocês lessem a entrevista no Estado, mas da conversa com o João sobraram algumas coisas muito interessantes que não estão no texto. Falei sobre Coutinho, Jogo de Cena, e o João foi lá no Cabra Marcado para Morrer. Apesar de todas as diferenças entre o Cabra, um líder camponês, e Santiago, mordomo da aristocrática família Salles, os dois filmes têm muita coisa em comum. Coutinho ia fazer uma ficção que foi interrompida pelo regime militar. Em 1984, 20 anos depois, ele fez um documentário sobre a ficção que não concluiu. João filmou o mordomo, mas não conseguiu editar o material. Foram necessários 13 anos para que ele percebesse o que ficou óbvio – que Santiago é sobre ele. Só aí João pôde finalizar o documentário sobre outro documentário que quase não foi concluído. Ambos tratam de relações de classe – no caso de Santiago, diretor e personagem são, também, patrão e empregado. João diz muitas coisas legais sobre os limites entre o documentário e a ficção, entre o público e o privado. A última pergunta da entrevista foi cortada, por falta de espaço. Perguntei a João o que ele ia fazer, a seguir. Sua resposta – “No momento, estou inteiramente dedicado à revista Piauí. Isso não significa de modo nenhum que deixarei de filmar. Mas certamente significa que só vale a pena fazer um novo filme quando souber responder essa pergunta.” Conversamos sobre isso e João disse que Santiago, o filme, foi tão visceral que, agora pelo menos, ele está bloqueado. Ocorreu com Coutinho. Após o Cabra, Coutinho ficou hibernando, fez O Fio da Memória quatro ou cinco anos depois, mas se passaram mais de dez anos antes que reinventasse seu cinema com Santo Forte, em 1999. Quando, ou como, João vai reinventar o dele? Por que estou postando isso? Porque estava escrito que eu ia ter de tratar do assunto, que a a supressão da pergunta (e da resposta) não ficaria impune. Cheguei hoje no Estadão, fui fazer os filmes na TV e descobri que a Cultura mostra amanhã, no Cine Brasil, às 22h30, justamente Cabra Marcado para Morrer. Pode ser mera coincidência, mas foi muito bem-vinda para mim.