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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2008 | 23h40

Régis conta do encantamento que lhe produziu ‘Um Dia, Um Gato’, quando assistiu ao filme de Vojtech Jasny. Eu o vi na estréia, em Porto Alegre, e confesso que também me encantei, mas na época era um prazer meio proibido. O filme não tinha realismo de cena, era puro artifício, uma fantasia, era coisa de alienados gostar. Havia muito patrulhamento, e o pior é que a gente não entendia a ruptura de tom que o diretor estava introduzindo na produção de seu país, nem o que havia de sátira política naquela ‘fantasia’. Vojtech Jasny foi um dos diretores cuja carreira entrou em parafuso depois que os fascistas, vestidos de vermelho, invadiram a Checoslováquia, pondo fim à ‘primavera de Praga’, em 1968. Só anos mais tarde ele conseguiu voltar aos estúdios, mas aí sua época já tinha passado. Mesmo assim, Jasny dividiu com Glauber o prêmio de direção no Festival de Cannes de 1969, cujo júri era presidido por Luchino Visconti. Glauber ganhou por ‘O Dragão da Maldade’ e Jasny por ‘Chronique Moldave’ (Crônica Moldava), sei lá que filme é esse. Olhando para trás, retrospectivamente, os anos 60 e 70 foram de transformações também no bloco socialista. Houve a nouvelle vague polonesa, a checa, a húngara. Wajda já vinha dos 50, mas os 60 assistiram à consolidação de Polanski, que logo virou um diretor cosmopolita, e de Jerzy Skolimowski, que também foi realizar sua obra-prima fora da Polônia, mais exatamente em Londres -‘Ato Final’, com John Moulder Brown e Diana Dors. Skolimowski foi outro que teve uma carreira complicada, mas após um longo hiato – fazia mais de dez anos que não filmava -, ressurgiu como ator de Cronenberg em ‘Os Senhores do Crime’, no qual fazia o tio de Naomi Watts, e como diretor de ‘Quatro Noites com Anna’, um dos bons filmes que vi em Cannes, neste ano. O cinema polonês tendia a ser pesado, o checo era de uma beleza visual e de uma leveza desconcertantes. Milos Forman os amores de sua loira, Jiri Menzel e os trens estreitamente vigiados, Karel Kachyna e o seu ‘Saltando Otra Vez los Charcos’, que vi na Bolívia, nos idos de 1970, e nunca esqueci. Adorava o cinema checo. E havia, na Hungria, o Miklos Janczo, com os planos-seqüências de seu ‘Salmo Vermelho’. Em toda parte os anos 60 foram revolucionários. O mundo estava mudando e o cinema acompanhava as mudanças, participava delas. Achei bonito o relato do Alexandre Carlos Aguiar sobre seus verdes anos em Floripa e de como só muito mais tarde ele entendeu o que aquele garoto queria dizer com ‘A Chinesa’, numa fase em que o grupo todo se trancava num pê para discutir estratégias de protesto contra a visita do general Figueiredo a Santa Catarina. Eles estavam reproduzindo Godard, e o Alexandre não sabia. João Dak pergunta pelos novos talentos. Onde estão? É uma questão de olhar, João. Os novos talentos continuam surgindo, mas às vezes não são só os diretores que ficam embaçados, atravancados pela velha estética. É o nosso olhar que tem dificuldade de identificar o novo. Um dos filmes que mais me encantou em Cannes, em maio, foi o português ‘Nosso Querido Mês de Agosto’, a que assisti na Quinzena dos Realizadores. Um filme que para algumas pessoas talvez seja nada. Para mim é tudo – um filme do tamanho do mundo, inovador esteticamente. Sobre o novo, João, aguarde por ‘Meu Irmão É Filho Único’, de Daniele Luchetti, que estréia nas próximas semanas (acho que no dia 20, ou 27). Fiquei tão tocado pelo filme em Cannes, no ano passado, que fiz o maior lobby junto a distribuidores brasileiros, para que o comprassem. A PlayArte mordeu a isca e está trazendo o ‘Fratello’. Para identificar o novo, é preciso um certo olhar, menos viciado. Falei/falei e não sei se consegui externar algo coerente. Espero que sim.