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Cultura » Um Camus é bom, dois então…

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Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2010 | 12h11

Na sexta, depois de ver ‘Carta para Elia’ no CineSesc, fui à reestreia de ‘Calígula’. No final, saímos para jantar (beber?) Cheguei em casa quase 5 da manhã. Dormi um pouco e corri para os autógrafos do livro de Amir Labaki, É Tudo Cinema’, sobre a história do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Depois de furar a fila – foi feio, reconheço, mas sou ‘velhinho’ e a terceira (melhor?) idade me garante certos privilégios –, emendei o autógrafo com o filme do Frammartino. E, ontem à noite, fui ver ‘O Estrangeiro’. Camus no palco, pela segunda vez no mesmo fim de semana, é muita sofisticação do circuito teatral da cidade. Sei que tem gente que não gosta de Camus, autor teatral, pelo menos não gosta de ‘Calígula’. Vi a montagem de Gabriel Villela em diferentes espaços e sempre me encanta ver o que ele conseguiu fazer com Thiago Lacerda, fazendo aflorar o grande ator que o naturalismo da TV mantinha sufocado. Confesso que, na sexta, o espaço reduzido do Teatro Vivo, o palco com menos profundidade entre todos os que vi abrigarem a peça, tornou o espetáculo mais concentrado e eu nunca prestei tanta atenção ao texto, propriamente dito. E é um puta texto, traduzido por meu amigo Dib Carneiro Neto. Comparativamente, o monólogo de ‘O Estrangeiro’ é, dramaturgicamente, mais fraco. Para começar, não é o texto de Camus, mas uma recriação, para teatro, do texto do livro. É como se Guilherme Leme, na pele de Mersault, nos contasse a história do livro, não refletisse, visceralmente, como faz Camus, sobre os grandes temas que o obcecavam. Chamado de filósofo do absurdo, Camus trouxe à luz os problemas que desafiam a consciência dos homens. Foi a justificativa da Academia Sueca para lhe atribuir o Nobel, em 1957. Mesmo me arriscando a ser chamado de ignorante, acho que é em ‘Calígula’ que Camus melhor ilustra suas ideias filosóficas. A partir da morte da irmã, o imperador descobre subitamente o absurdo do mundo que o cerca. E, já que nada mais faz sentido para ele, Calígula radicaliza – e não respeita nenhuma regra estabelecida. A base filosófica dessa concepção já estava no ensaio ‘O Mito de Sísifo’. O problema fundamental do homem está na inutilidade de seus esforços diante da inevitabilidade da morte e da desordem e crueldade do mundo. É interessante, mas John Huston sempre se considerou mais próximo de Sartre – que escreveu para ele o roteiro infilmável de ‘Freud, Além da Alma’ –, mas tenho a impressão de que sua essência era muito mais Camus, só que ele substituía a inutilidade do esforço pela validade. O herói hustoniano sabe sempre que será derrotado, mas luta. Não é Calígula, que encontra sua saída na loucura e na morte. Como é a frase – ‘Quem ousaria me condenar, no mundo sem juiz, onde ninguém é inocente?’ O próprio Sartre veio em defesa de Camus, antes do rompimento, para dizer que Mersault, o Estrangeiro, era um dos terríveis inocentes que são o escândalo da sociedade, porque não aceitam as regras do jogo. Mersault é condenado, menos por haver matado o árabe e mais, muito mais, pela insensibilidade que teria revelado ao não chorar no enterro da mãe. Mersault não é o homem revoltado de Sísifo, mas diante da certeza da morte ele toma consciência do absurdo da existência e manifesta seu desgosto, esperando que sua execução seja vista por uma multidão cheia de ódio pelo assassino que é. Estava entrando no Teatro Eva Herz com o Dib quando observei para ele – Visconti, que nunca ficou muito satisfeito com sua versão de ‘O Estrangeiro’, pois a viúva de Camus não lhe permitiu fazer o filme que queria, sonhava com Alain Delon no papel de Mersault e terminou filmando com Marcello Mastroianni. Não creio, não me lembro, que o escritor faça uma descrição de seu personagem, mas eu sempre o vi muito mais como Gérard Philippe, cuja silhueta tinha alguma coisa da do próprio Camus. Tergiverso, mas quero dizer que, com todos os reparos que possa fazer a ‘O Estrangeiro’ – o texto é descritivo, Guilherme Leme oscila entre o naturalismo e a teatralidade em sua interpretação –, achei o espetáculo dirigido por Vera Holtz bem digno. A iluminação é deslumbrante, a cenografia é a ausência de cenografia que constrói o despojamento cênico. No limite, gostei de ter visto ‘O Estrangeiro’. Dois Camus no mesmo final de semana? Gostaria de que tivessem sido três. Teria sido uma boa rever também o filme de Visconti, que o mestre, autocrítico como ele só, mesmo fazendo reparos, não considerava um de seus filmes menores.