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Um Caminho para Dois

Luiz Carlos Merten

02 Julho 2007 | 12h04

Redigia o post sobre O Manifesto quando, ao contar um pouco a trama da peça, referi-me à crise do casal, quando Othon Bastos grita para Eva Wilma que sabia do adultério dela, há mais de 30 anos. A ação pára. Aqueles 15/20 segundos são maravilhosos. Lembrei-me imediatamente de um grande filmes de Stanley Donen, Um Caminho para Dois, com Audrey Hepburn e Albert Finney. Donen realizou alguns dos maiores musicais do cinema – Cantando na Chuva, Sete Noivas para Sete Irmãos, Cinderela em Paris. Há um tema permanente em seu cinema e é o casal, o que une e separa as pessoas. Um Caminho para Dois chama-se Two for the Road, no original. A estrada é metáfora da vida. Audrey e Finney refazem o caminho que fizeram na lua de mel, muitos anos antes. O roteiro de Frederic Raphael, que escreveu depois De Olhos bem Fechados para Kubrick, incorpora os conflitos de tempo e espaço que Resnais havia introduzido no fim dos anos 50, num clássico como Hiroshima, Meu Amor, ao qual se seguiu O Ano Passado em Marienbad. Prefiro o primeiro, mas o assunto é Two for the Road. O filme tem aquela cena notável em que Audrey admite que cometeu adultério. Ela grita para o marido que voltou, porque gosta é dele, mas a traição é sempre uma situação difícil de assimilar. Lembrei-me de tudo isso, mas ia deixar passar se, ao redigir os filmes de amanhã no Caderno 2 não tivesse encontrado à tarde, na Globo, Um Caminho para Dois. Fui seco, atraído pelo título, mas não é o filme de Donen e sim, 12 Mile Road, de um certo Richard Friedenberg. Que decepção! Filmes homônimos são cada vez mais freqüentes. Virou um risco fazer uma sinopse só a partir do título no Brasil. Tenho certeza de que vocês já devem ter-se enganado. Mas eu lamentei particularmente não ser o filme de Donen. Depois de O Manifesto, me deu uma vontade imensa de escrever sobre ele. O blog permite esses devaneios. Audrey era maravilhosa. Donen lhe deu belos papéis – em Cinderela em Paris, em Charada. O melhor é em Um Caminho para Dois. Quando ela diz ‘Mark, I came back’ – Mark é o nome do marido – a emoção é tão genuína que eu a ouço dizer a frase, aqui, agora.