Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Um bom chinês e o fascinante caso de Oliveira

Cultura

Luiz Carlos Merten

13 Maio 2010 | 13h13

CANNES – Estou conseguindo postar num horário ainda razoável para vocês, 12h45, mas aqui já são quase 6 da tarde. O segundo dia do 63º Festival de Cannes está longe de terminar. Teremos daqui a pouco a abertura de Cannes Classics – sim, será com ‘O Beijo da Mulher Aranha’, em presença de Babenco e não sei quem mais (depois eu conto), e na sequência o filme coreano ‘The Housemaid’, que já teve sessão à tarde, mas perdi porque queria acompaznhar a entrevista de Manoel de Oliveira, Vamos por partes.

O primeiro filme da competição foi o francês ‘Tournée’, de Mathieu Amalric. Não vou dizer que me decepcionou nrem que achei ruim porque para isso teria de ter tomado posição. Achei o filme bem indiferente e me pergunto por que está aqui. Amalric é bom ator (‘O Escafandro e a Borboleta’,  Quantum of Solace’, ‘Conto de Natal’ etc), mas o filme não me convenceu. Ele próprio faz o empresário de um grupo de strippers norte-americanas. Elas fazem shows em cidades do interior da França e Amalric evita Paris porque queimou suas pontes na terra natal e tem a ex-mulher e antigos parceiros, agora inimigos, na sua cola. As strippers são ‘fellinianas’. Velhuscas, acima do peso, mas todas com verdadeiras aolmas de artistas (e uma grande facilidade para tirar a roupa). É como assistir a mulheres de Fellini num drama de John Cassavetes. Imagino que alguém terá gostado; eu, não.

Encantei-me, em contrapartida, com o chinês ‘Chongqing Blues’, de Wang Xiaoshuai, o autor de ‘Bicicletas de Pequim’, que ganhou o Urso de Prata em Berlim. O filme é sobre esse pai que volta a Chongqing para tentar descobrir o que ocorreu com o filho, de quem estava distante há dez anos. O garoto foi morto pela polícia durante um episódio com reféns, numa loja de departamentos. A ex-mulher guarda grande ressentimento contra ele e o protagonista é a representação da própria China atual, dividida entre o passado, a família desestruturada e destruída, e a nova família, outra mulher e filho. O cara é capitão de um navio, vive no mar, o que ajuda a entender sua dificuldade para se estabelecer e criar raízes. Todo mundo sofre no filme – o pai, o melhor amigo do filho, a ex-namorada, o policial que matou, todos conscientes de que poderiam ter feito alguma coisa para salvar o jovem. Lá vou eu bater na tecla. Paternidade é um assunto que mexe comigo. Gostaria de ser o melhor pai do mundo para minha filha Lúcia, mas o que seria exatamente isso? A gente faz o que pode. Chorei pra burro. O filme é uma espécie de versão de ‘Juventude Transviada’ pelo ângulo do pai de James Dean (que não conta muito no clássico de Nicholas Ray).

E houve o Oliveira, curiosamente às vésperas da estreia de ‘Belle Toujours’, amanhã, em São Paulo, não sei se também no Rio. Manoel de Oliveira, 101 anos (e meio), abriu a mostra Un Certain Regard com ‘O Estranho Caso de Angélica’. A Mostra de São Paulo é co-produtora e Leon Cakoff e Renata de Almeida tem crédito pessoal no começo. Leon e Renata ‘apresentam’. O filme é sobre fotógrafo chamado para fotografar uma jovem que morreu. Quando ele põe o olho no visor da câmera, ela parece sorrir para ele. O cara fica obcecado. Num certo sentido, o filme é anacrônico. Oliveira não se interessa muito pelça técnica. Acha que suas inovações são do domínio da ciência e a ele o que interessa é a arte, o cinema como forma de expressão. Seria lugar comum dizer que ele é um jovem centenário – bom, mas é. Na última vez que o vi numa coletiva, Oliveira me pareceu mal, meio destrambelhado, com dificuldade para se expressar. Achei-o agora muito bem. Sereno, articulado, com grande agudeza de raciocínio – e lúcido. Um amigo teve a sensação de estar assistindo ao último filme do mestre, ao seu testamento. A morte, os fantasmas, a espiritualidade, tudo isso tem seu contraponto na ideia concreta da terra, do solo, e o filme vive dessa dicotomia. O princípio da incerteza 2. Ou será ‘A Festa da Menina Morta’  de OLiveira, como não resistiu a me soprar na orelha Neusa Barboza. Gostei do Oliveira. Ana Maria Magalhães é atriz. Faz um papel pequeno mas importante, introduzindo a discussão sobre a antimatéria no coração de ‘O Estranho Caso de Angélica’. É curioso. Estava tentando fazer uma ponte com ‘O Retrato Oval’, mas ascho que tem mais a ver com ‘A Fronteira do Amanhecer’, ou da Alvorada, La Frontière de l’Aube, que concorreu aqui em Cannes há un par de anos, e do qual não gostei. Oliveira é melhor do que Philippe Garrel, mas vou ter de elaborar mais. Não basta dizer que Ricardo Trêpa, como Louis Garrel no outro filme, é fotógrafo e ambos são confrontados com a morte.

Encontrou algum erro? Entre em contato