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Cultura » Um blockbuster cênico

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Luiz Carlos Merten

13 Janeiro 2012 | 23h25

SANTIAGO – Fui o primeiro a perceber, e até ri (comigo mesmo). Hoje pela manhã, no meu
horário na Rádio Estadão ESPN, expliquei que estava no Chile com amigos, e
assistindo a espetáculos do Santiago a Mil, o maior evento de artes cênicas da
cidade (e do país). É uma realização da iniciativa privada, com apoio da
Municipalidad de Santiago. O orçamento é simplesmente maior do que o Ministério
da Cultura tem para atender a TODAS as manifestações artísticas chilenas. Peter
Greenaway veio mostrar seu novo espetáculo na abertura, e eu perdi. Mas, além
de ‘Sua Excelência Ricardo III’, direção de Gabriel Villela com os Clowns de
Shakespeare, de Natal, Rio Grande do Norte, que já virou uma das sensações do
evento – é teatro de rua da melhor qualidade e os organizadores estão pedindo
para o grupo, o ‘nosso coletivo’, como gosto de brincar, ficar mais uns dias -,
assisti também ao Théâtre Du Soleil, de Ariane Mnouchkine, com a brasileira Juliana
Carneiro da Costa no elenco. Foi onde errei, hoje pela manhã. O espetáculo
chama-se ‘Náufragos da Louca Esperança’ e eu o batizei, no ar, como ‘Peregrinos
da Boa Esperança’, mas explico. O espetáculo, que já passou por São Paulo, mas
eu estava fora, fala da realização de um filme em 1914, no  momento em que a 1ª Guerra está para explodir e, na América do Sul, Argentina e Chile estão em litígio pela propriedade do
Canal de Beagle. O cinema, surgido no bojo da revolução industrial, vira o
avatar dos utopistas – os socialistas, e não apenas eles – que, acreditam que,
com o desenvolvimento tecnológico, uma nova era vai se abrir para a humanidade.
A felicidade ao alcance de todos. Liberdade, igualdade, fraternidade,
finalmente. Não é o que ocorre e um naufrágio vira a metáfora do colapso dos
sonhos, mas eles teimam em ressurgir. Náufragos ou peregrinos da (eterna)
esperança? Ariane Mnouchkine está fazendo teatro popular de alta qualidade. Num
certo sentido, pelos recursos de que ela dispõe – e necessita -, ‘Náufragos’ é
um blockbuster teatral. Amei, e não apenas a homenagem ao cinema – feita pelo
teatro, vejam só -, mas fiquei eufórico justamente com o que alguém poderá
considerar o ponto fraco do espetáculo, o seu calcanhar de Aquiles, justamente
o tom panfletário para, bebendo em Jules Verne e outros visionários – Marx,
Marx, Marx -, reativar nosso sonho, de que um outro mundo é possível. Chorei,
vibrei, me exaltei. Hoje pela manhã, ainda estava de ressaca, de tanta beleza.
Tive matérias, os filmes na TV de sábado e domingo. Foi-se a manhã. À tarde, saímos,
Gabriel Villela, Dib Carneiro e eu, para um city tour. Quantas vezes já vim a
Santiago? Perdi a conta. Em todas elas, fiz sempre o city tour e, desde 1973 –
minha primeira vez, pouco antes do golpe militar -, esta cidade e este país não
cessaram de mudar (e me surpreender). A loucura humana. Está sendo construída,
aqui, a maior torre, o edifício mais alto, da América Latina. O desafio –
construir um prédio desses num país assolado por terremotos. O prédio ergue-se
com a cordilheira ao fundo. Lembrei-me de Burj Khalifa, a torre mais alta do mundo,
em Dubai – que Tom Cruise escala em ‘Missão Impossível, Protocolo Fantasma’.
Lá, o desafio era construir uma torre no deserto, e à prova de ventos. Por que
o homem constrói essas coisas? Para mostrar que domina a técnica? Ao mesmo
tempo que admiro isso, creio que se trata, no fundo, de uma malversação da
tecnologia para toda a humanidade, tal como é celebrada no espetáculo de Ariane
Mnouchkine. Burj Khalifa virou o símbolo da riqueza de Dubai (e dos Emirados
Árabes). A torre no Chile será a expressão do poder de um Eike Batista local,
um alemão que fez fortuna por aqui (e, segundo o guia, possui interesses no
Brasil, com uma rede de drogarias que cobre todo o Nordeste). Há um momento
lindo em ‘Peregrinos’ – muitos momentos, mas esse é especial. Juliana Carneiro,
que faz a cinegrafista, é alçada por um cabo para fazer uma incipiente, e
primitiva, grua neste cinema que está nascendo. Entra um navio em cena. Deus do
céu! O gigantismo impressiona, mas não mais do que recursos simples, dentro
desse faz de conta que é o teatro. A neve é feita de papel picado. Lindo.
Teatro autoral, panfletário, popular. Ariane sempre quis construir monumentos
ao efêmero. Então por que falar do cinema, que é instrumento de vida e morte,
que celebra o efêmero, ao mesmo tempo que o eterniza. Como criadora de
blockbusters cênicos, Ariane Mnouchkine é a Steven Spielberg, a Christopher
Nolan do teatro.