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Cultura » Um barco e quantos destinos?

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Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2006 | 13h42

Em 1944, Otto Preminger estava fazendo Laura quando Alfred Hitchcock se lançou ao desafio de Lifeboat – e venceu. Com o título de Um Barco e Nove Destinos, o filme integra com Laura e Suplício de Uma Saudade o pacote de DVDs da Fox à venda nas lojas. Para quem criou fama como mestre da montagem (e do suspense), parece absurdo que Hitchcock tenha feito este filme que se passa quase que integralmente no barco em que vão parar nove sobreviventes de um naufrágio. A bordo, há um nazista e vão surgir revelações que farão explodir o mundo reduzido a este espaço tão minúsculo. Hitchcock iniciou sua carreira americana com Rebecca, em 1940. Na Inglaterra, já havia esculpido sua fama como diretor de suspense, mas nos EUA a carreira começou ziguezagueante, com filmes como a comédia Um Casal do Barulho, que só os fãs de carteirinha, tipo François Truffaut, eram capazes de saudar como obra-prima. Para Hitchcock, um filme como Lifeboat era certamente um desafio e ele conseguiu até fazer sua tradicional aparição, por meio de uma foto promocional num jornal. Quatro anos mais tarde, o mestre assumiria outro desafio exdrúxulo, tentando narrar Rope (Festim Diabólico) num só plano contínuo, o que a tecnologia existente na época não permitia e ele teve de improvisar, para disfarçar os cortes que se fizeram necessários. Em princípio, Um Barco e Nove Destinos parece um corpo estranho no conjunto da obra do autor, mas, além de manter o interesse (e a tensão), é curioso analisar o filme pelo ângulo da técnica – como o cineasta a subordina à ação – e também para curtir esta rara oportunidade de ver em cena a lendária atriz de teatro e cinema, Tallulah Bankhead. A jornalista que ela interpreta parece a inquiridora Teresa Wright de A Sombra de Uma Dúvida, feito em 1943 – se por ventura sofresse um acidente durante a guerra e fosse parar num barco com outros oito sobreviventes (e um deles seria culpado como o tio de Teresa no filme anterior de Hitchcock).