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Um banho de Hitchcocks

Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2007 | 17h05

Alfred Hitchcock – comecei a rever os filmes do mestre do suspense, um filme levava ao outro, uma imagem vista como trailer antecipava a vontade de ver o conjunto todo da obra. Muito interessante. Existem filmes de Hitchciock que são irretocáveis, pelo menos para mim – ‘Janela Indiscreta’, ‘Um Corpo Que Cai’, ‘Psicose’. E existem outros cujos defeitos ajudam a torná-los fascinantes. O caso mais notório é ‘Marnie, as Confissões de Uma Ladra’, que François Truffaut definia como obra-prima doente, mas existem outros. Posso arder no fogo do inferno dos hitchcockmaníacos, mas cheguei à conclusão de que ‘Topázio’, com todos os defeitos que possa ter, me atrai mais do que ‘Os Pássaros’. Por mais fascinante que seja a condição edipiana de Rod Taylor em ‘Os Pássaros’ – e o filme é intermediário entre ‘Psicose’ e ‘Marnie’, sendo que o último conta a história de uma Norma Bates de saias (e curável), no que forma uma trilogia de grande complexidade e coerência -, tenho para mim que, de todos os grandes filmes de Hitchcock, justamente ‘Os Pássaros’ foi o que mais envelheceu. O próprio Hitchcock, se vivo fosse, apesar dos cento e tantos anos (nasceu em 1899), com certeza adoraria refazer os efeitos, porque eles são muito rudimentares e parecem da idade da pedra. Não só os efeitos – existem cenas que não funcionam mais, como a de Tippi Hedren encolhida no sofá, horrorizada ante o aumento do volume do ruído dos pássaros lá fora, sinal de que eles estão atacando de novo. Em compensação, adorei uma cena que seria totalmente impensável no cinema de Hollywood, hoje. É aquela em que Suzanne Pleshette e Tippi Hedren conversam, justamente analisando a relação de Mitch (Rod Taylor) com a mãe e a oposição dela, como Jocasta, a toda figura feminina que se aproxima do filho. As duas fumam e há ali um componente de erotismo e de maturidade – duas mulheres adultas falando de homens, e de sexo – como não se encontra mais no cinema de estúdio. Já imaginaram? Em Hollywood, hoje, a cena seria considerada politicamente incorreta e, como tal, eliminada de cara. Por outro lado, achei muito interessante a construção dramática de ‘Topázio’ e a maneira como Hitchcock experimenta várias coisas no filme – o diálogo de Frederick Stafford e Roscoe Lee Borwne filmado por detrás do vidro, sem que se ouça o som, é repetido (multiplicado) diversas vezes, de forma a criar uma situação ímpar. O espectador vê os personagens planejarem alguma coisa, mas não sabe o que é e, de qualquer maneira, quando ocorre, é como se a gente soubesse (ah, então era isso?). Achei o recurso muito interessante porque é uma forma de lidar com a grande questão do filme – a crise dos mísseis de Cuba, cujo desenlace já era conhecido quando Hitchcock filmou, em 1969. Mas o que gosto em ‘Topázio’ é da traidora Juanita, sacrificada no jogo das potências – e a cena em que ela, baleada, cai e o vestido se abre como se fosse uma rosa, ou como uma mancha de sangue no xadrez do piso, que é o xadrez do jogo da oposição entre Washington e Moscou, é uma coisa de louco. Juanita tem um discurso político. Ela diz que fez o necessário por seu povo, mas não é verdade – ela age movida pelo desejo que sente pelo espião francês. É o que percebe Rico Parra, um personagem extraordinário na sua grandeza. Hitchcock, no fundo, é muito mais solidário com os revolucionários cubanos do que parece (ou parecia), há quase 40 anos. Quando Rico diz que, entre todas as pessoas do mundo, Juanita seria a última a ter direito de cobrar dele os rumos que a Revolução Cubana está tomando, é incrível, mas a fala parece profética. John Vernon é o intérprete do papel. Hitchcock colocou nele a barba, a farda verde e o Vernon parece um daqueles ícones (o Che, Fidel) na cena do discurso para a multidão, quando Stafford, o agente duplo, é desmascarado. O mais incrível é a atriz que faz Juanita, Karin Dor. Alemã, loira, ela foi vilã da série James Bond (em ‘Com 007, Vive-se Duas Vezes’). Só Hitchcock para imaginar que Karin, morena, poderia virar uma cubana caliente (e ela é). Lembrei-me, revendo o filme, que Hitchcock chegou a testar Eva Wilma para o papel. Eva é ótima, mas Karin encarna melhor a sensualidade que se recusa a ser reprimida. Para um filme que tem a fama de ruim, como ‘Topázio’, tudo isso me parece bem provocativo.

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