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Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2006 | 18h25

Há dois anos, em Cannes, tive um troço ao assistir ao filme de Paolo Sorrentino, Le Consequenze dell’Amore. Este ano, vi O Amigo de Família e fiquei perturbado, mas é o tipo do filme do qual ninguém queria nem falar no maior festival de cinema do mundo. O amigo de família é este usurário que empresta dinheiro a juros exorbitantes. No limite do desespero, sem dinheiro para pagar, um cliente lhe oferece a mulher. Sorrentino cria um universo doentio e sórdido. O Amigo de Família é O Cheiro do Ralo à italiana. Cheguei hoje na redação e encontrei a Flávia Guerra siderada pelo filme. Flávia sabe das coisas. Já tinha até ligado para o Heitor (Dhalia) para fazer a ponte entre o filme dele e o do Sorrentino. Eu sei que muitas vezes desconcerto os outros, mas as pessoas também me desconcertam. Eu, por exemplo, teria achado muito mais ousado se os críticos independentes tivessem premiado o Sorrentino na 30ª Mostra, mas o Pedro Costa? Que coisa mais… chata, mais… óbvia. O universo de O Amigo de Família é muito parecido com o de O Cheiro do Ralo, mas não existem dois filmes mais diferentes em estilo. Sorrentino é um corpo estranho no cinema italiano atual. Seu universo é sórdido, mas ele filma com um rigor, uma elegância e uma economia que são exemplares. É um dos autores que mais questionam a estética e a moral. Seria bom se a gente, e eu me incluo, começasse a prestar mais atenção nele. Eu, por exemplo, descubri o Sorrentino com Le Consequenze, mas ele já havia participado da 25ª Mostra com Um Homem a Mais.