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Luiz Carlos Merten

17 Setembro 2008 | 10h32

Cacá Diegues e Gilberto Diemenstein, pelo que me contam, amaram ‘Última Parada 174’, de Bruno Barreto, que foi indicado ontem pela comissão do MinC para representar o Brasil na briga por uma indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro, no próximo mês de fevereiro. Estou relutando em falar do filme – vocês já perceberam – porque estou no maior conflito. Não sei se gostei de ‘Última Parada’, mas o filme com certeza me afetou muito. Saí do cinema achando horrível porque experimentei uma sensação inédita que talvez não esteja conseguindo analisar direito. Já vi, como todo mundo, filmes violentos, de ‘Meu Ódio Será Sua Herança’ (The Wild Bunch, de Sam Peckinpah) a ‘Tempo de Violência’ (Pulp Fiction, de Quentin Tarantino) e ‘Cidade de Deus’, de Fernando Meirelles, para não falar de ‘Tropa de Elite’, de José Padilha, que muita gente achou ‘fascista’, no ano passado. Em nenhum deles experimentei aquele engasgo que me deixou com ânsia de vomito, que tive em ‘Última Parada’. Nunca havia experimentada isso no cinema – nunca! – e a sensação me perturbou muito. Depois disso, já conversei com algumas pessoas – diretores de cinema que entrevistei desde domingo –, e um deles me perguntou se isso não era bom? Afinal, a gente vai assimilando e deglutindo a violência com tal intensidade que, às vezes, é bom que um filme venha nos revirar o estômago por botar na nossa cara um espelho. Antes da ficção de Bruno Barreto, vi – imagino que todos tenhamos visto – a versão documentária do Padilha, ‘Ônibus 174’. A comparação é inevitável. Padilha mostrou o episódio do seqüestro do ônibus, tal como foi acompanhado na TV, e acrescentou as entrevistas com familiares e especialistas que tentam nos decifrar o enigma da personalidade de Sandro, o seqüestrador, que alterna, conforme os depoimentos, as posições de monstro e vítima. Padilha fica do lado de Sandro, o que não significa necessariamente apoiá-lo, mas o ponto de viata é o do excluído – como será mais tarde o da polícia, do Bope, em ‘Tropa de Elite’. Bruno Barreto e o roteirista Bráulio Mantovani tentam expressar essa multiplicidade de pontos de vista. De que maneira? Eles criam dois Sandros – Alê Monstro, o bebê arrancado aos braços da mãe viciada e criado pelo traficante; e Sandro, que viu a mãe morta num assalto na birosca do morro. Os dois crescem, os caminhos cruzam-se e ocorre uma inversão. Num determinado momento, Alê Monstro fragiliza-se e Sandro vira o capeta em cena. A inversão ocorre também com a personagem da mãe, a viciada que vira evangélica. O filme é crítico em relação à igreja evangélica – o pastor preocupa-se demais com o dinheiro, é covarde etc –, mas Bruno não deixa de reconhecer o que já nos disse João Moreira Salles num de seus documentários. É na igreja, no culto, que a mãe, invisível como as crianças nos semáforos, adquire uma cidadania. A mãe me pareceu a personagem mais marcante, até por sua ‘inversão’ ou transformação dramática. Não sei direito de onde me veio essa contração no estômago, mas impliquei com uma cena. De maneira geral, as cenas que ilustram a carência de Sandro com a prostituta me pareceram… discutíveis? Chega o momento em que Sandro descobre Alê Monstro com a ‘sua’ mulher. Alê Monstro é um cara enorme, um tinhoso quando aparece pela primeira vez. Sandro é mais nanico, mas ele, que antes havia ficado intimidado, agora reage e vai para cima do outro, que se acovarda. Não consegui acreditar na cena. A inversão me parece interessante como idéia, no papel, mas a mise-en-scène não me convenceu muito. Ela é decisiva, de qualquer maneira, não apenas por lançar Sandro num estado de agitação que o leva à última parada, mas também porque vai levar o fragilizado Alê ao encontro final que poderá mudar sua vida, na medida em que ele, que já foi ‘mau’, vai enterrar ali sua outra metade. Achei meio facilidade dramática, como possibilidade de embutir um possível happy end. Tudo isso escrito, não consigo dizer que gostei de ‘Última Parada’. Meu sonho de cinema não é o filme que me embaralha o estômago, por mais cruel ou nauseante que seja a realidade retratada. Mas, de qualquer maneira, ‘Última Parada’ é mais impactante do que qualquer outro filme recente do diretor, da mesma forma que também é o de maior impacto – excessivo até… –naquela lista de obras que pleiteavam a indicação para o Oscar. Vamos voltar ao assunto. Preciso me encontrar com Bruno, que já voltou do Festival de Toronto, onde, pelo que sei, ‘Última Parada’ deixou a platéia em estado de choque. É o que, no exterior, se espera de um filme brasileiro. Quem sabe…?
P.S. – Tem mais uma coisa. Vou tentar ler um texto do Bruno sobre ‘Tropa de Elite’. Não li, mas na época me lembro que me haviam comentado que Bruno e Babenco caíram matando no Padilha, e no ‘Tropa’. Foi isso mesmo? Só pode ser uma resposta/provocação do Bruno colocar o ator de ‘Tropa de Elite’, o idealista que vai suceder Wagner Moura no Bope, como negociador da polícia no desfecho de ‘Última Parada’. O episódio do ônibus, propriamente dito, fica para os 15 minutos finais (se tanto).

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