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‘Última Parada’ (2)

Luiz Carlos Merten

21 Setembro 2008 | 14h08

Não li a coluna de hoje de Daniel Piza no ‘Cultura’ – Sinopse –, mas já me contaram que ele gosta médio de ‘Linha de Passe’ e não gosta de ‘Ensaio sobre a Cegueira’, queixando-se da falta de verossimilhança do filme que Fernando Meirelles adaptou do romance de José Saramago. Pelo que me contaram, Daniel faz reparos ao próprio livro e vocês sabem como eu tenho implicância com o Prêmio Nobel, que acho um escritor impenetrável, mais do que difícil. A falta de verossimilhança, no caso, tem a ver com meu post anterior, sobre ‘Última Parada’ e por isso vou manter o título. Mas tem a ver também com um sentimento que eu próprio experimentei quando vi o ‘Cegueira’ pela primeira vez, em Cannes. Daniel empaca com o que parece só um detalhe – Julianne Moore é a única que vê, num filme sobre cegos, e o Piza acha que ela teria mais do que condições de ir lá e tirar a arma de Gael García Bernal, quando ele instala sua monarquia e passa a oprimir todas as pessoas reunidas naquela verdadeira prisão. Confesso que, ao rever o filme, a questão tornou-se irrelevante, mas é claro que ela depende de uma aceitação nossa para ser verossímil, justamente aquilo de que falava Bruno Barreto no post anterior. Ao rever o ‘Cegueira’, as sutilezas na construção do relacionamento do casal Mark Ruffalo/Julianne Moore me pareceram mais transparentes. Na primeira cena deles, fica claro que essa mulher é acomodada em casa, que vive à sombra do marido e não tem muita confiança em si mesma. No confinamento dos cegos, vai ocorrer uma inversão – como em ‘Última Parada 174’ – e ela vai assumir a parte forte do casal, mas até que isso ocorra acontecem coisas bem interessantes. O Gael armado desmonta o Mark Ruffalo, quando ele vai lá tentando conversar e o outro rispidamente lhe diz que não está nem aí para suas ordens. Ruffalo representa a fragilidade da civilização. Ele tenta manter uma ordem naquele caos, por meio de uma série de regras, e a intransigência do outro o desmonta. Pelo contrário, Julianne, no começo, teme assumir que é a única que enxerga e se submete à opressão masculina para só se libertar depois que vê o marido transando com a outra. Engraçado é que só consegui pensar isso na segunda vez em que vi o filme e aí não me incomodou nem um pouco o comportamento da Julianne em relação à arma, que também me incomodara quando vi o filme em Cannes. Conto agora essa história menos para contradizer o Daniel, mas porque vem de encontro ao meu papo com Bruno Barreto e a questão sobre a verossimilhança. Como disse o Bruno, as coisas, no cinema, não têm apenas de ser verdadeiras, ou reais. Têm de ser verossímeis. E isso também depende, às vezes, do grau de adesão que a gente está tendo em relação à obra. O que vocês pensam?