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Luiz Carlos Merten

21 Setembro 2008 | 12h22

Vou misturar várias coisas esperando chegar à história que quero contar. Tenho uma colega evangélica que brinca que vive orando por mim, para me converter, No outro dia, ela chegou meio trêmula à redação. Seu filho, um garoto franzino de 14 anos, foi assaltado por um sujeito que chegou por trás, armado, e exigiu o celular. Ele se voltou e viu um cara enorme, de quase dois metros. Bateu uma raiva no guri que ele disse – ‘Ah, quer o celular? Pois vai buscar” e atirou longe, no quintal de uma casa. Mesmo que a arma fosse de brinquedo, o cara tinha tamanho suficiente para desmontar o garoto, mas eu poupo vocês de todos os detalhes da história, que terminou sem injúria para ninguém, o que, segundo minha colega, é a prova de que Deus, o misericordioso, atende às suas orações. Contei a história para Bruno Barreto durante a entrevista que fiz com o diretor de ‘Última Parada 174’, na quinta-feira à tarde. O próprio Bruno está impressionado com a corrida da mídia atrás dele, por causa da indicação de seu filme, que só estreou em Jundiaí, para ser o indicado do Brasil à disputa por uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. Não reproduzo seus comentários porque quero reservá-los para a matéria que pretendo fazer no ‘Caderno 2’. Mas não posso deixar de acrescentar uma coisa. Comentei com ele o que disse alguém aqui no blog (quem?) – que, se existe filme da família Barreto na disputa pré-Oscar, só pode dar ele. Bruno fez uma sincera cara de tristeza, disse que seu filme não tem nada a ver com a família e os nomes de seus pais, Luiz Carlos e Lucy Barreto, estão lá muito mais como uma homenagem afetiva. Bruno citou Manuel Puig, que, segundo ele, dizia – ‘Que coisa mais antiga!’ Já contei para vocês, e falei para o Bruno, que empaquei numa cena do filme dele, quando há um twist, uma inversão, e o garoto franzino, o Sandro, vai para cima do Alê Monstro na porrada. Bruno usa os dois para contar a hiastória de Sandro, o seqüestrador do ônibus. Não consegui acreditar no teor da cena, acho que dificilmente Alê Monstro, tal como vinha sendo pintado, teria se surpreendido a ponto de ficar intimidado e apanhar do garoto franzino e que cresce possuído pelo ódio. A cena é fundamental na evolução dramática de ‘Última Parada’, que se estrutura sobre essa (e outras…) inversões. Bruno me disse que, na fase de roteiro e até de ensaios, tinha suas dúvidas em relação à cena, mas foi persuadido pelo roteirista Bráulio Mantovani e o preparador de elenco Rogério Blat. Bruno levou tão a sério o que lhe disse que me afirmou que gostaria de refazer a cena, porque as minhas dúvidas reacenderam as dele, embora ninguém mais tenha reclamado disso. ‘Última Parada’ abre na quinta-feira o Festival do Rio. O filme estréia em 24 de outubro e, antes disso, terá exibição na Mostra de São Paulo, no dia 20. A maioria de vocês vai ter de esperar para conferir o que estou falando, mas eu contei a história do filho da minha colega para o Bruno, meio como consolo, mas também porque me parece um exemplo de que a gente nunca pode prever como as pessoas vão reagir a determinadas situações. Bruno me disse a frase lapidar – a realidade está permeada de histórias inacreditáveis e, por isso, até existe a expressão ‘acredite, se quiser’, que deu origem a uma série famosa. Mas, se a realidade pode ser inacreditável, a ficção, e o cinema, têm de ter verossimilhança, me afirmou o Bruno e achei muito interessante a afirmação dele. Ela me leva a um comentário de Daniel Piza na sua coluna – Sinopse – de hoje no ‘Caderno 2’. O post está enorme. Vou dar um break e continuo daqui a pouco.