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Luiz Carlos Merten

02 Abril 2007 | 09h46

Fui ver ontem à noite, no Tuca, a peça Volta ao lar, de Harold Pinter. Gostei demais da conta (como dizem os mineiros) do elenco, mas ontem foi o último dia e, quem não viu, perdeu o texto do vencedor do Nobel, além de roteirista de alguns dos maiores filmes de Joseph Losey. Poderia usar a peça, e Pinter, para voltar a falar de Losey, mas quero comentar outra coisa. Havia, no saguão do teatro, uma exposição de fotos, com patrocínio da Petrobras, contando a história da UNE, União Nacional de Estudantes, incluindo o CPC, Centro Popular de Cultura, que foi um dos embriões do Cinema Novo. Espero que ainda permaneça lá. Fotos e textos me trouxeram à mente a lembrança do movimento estudantil, nos anos 60, com tudo o que representou de resistência ao regime militar. Mas o que me interessa é uma coisa bem específica. Um dos painéis refere-se à comoção que causou a morte do estudante Edson Luís Lima Souto, que terminou sendo o estopim para que outros setores da sociedade civil se unissem nos protestos contra a ditadura. Édson Luís morreu em 28 de março e foi sua morte que deflagrou o ano de 1968 no Brasil. Em maio, o mundo iria pegar fogo, mas no País, dois ou três meses antes, a situação já estava fervendo. Uma das fotos mostra a polícia baixando o pau num grupo de estudantes em frente a um cinema. O título do filme, na marquise, é Uma Cara Nova no Inferno e fornece um contraponto muito interessante à violência clicada pelo fotógrafo. Na época, sob censura, a imprensa aproveitava todas as brechas para tentar dizer alguma coisa. Mas, de repente, eu estava me lembrando era do próprio Uma Cara Nova no Inferno, do John Guillermin, com George Peppard no papel de P.J. As iniciais forneciam o título original e o filme conta a história de um private eye, um detetive particular contratado para seguir a amante de um chefão. Uma Nova Cara pertence à onda de filmes com que Hollywood, na época, ressuscitava o detetive particular e voltava à onda do filme noir. Foi quando se forjaram, em definitivo, as reputações de filmes que já vinham sendo cultuados, como Relíquia Macabra, de John Huston, e À Beira do Abismo, de Howard Hawks, ambos com Humphrey Bogart (como Sam Spade e Philip Marlowe). Não sou louco de querer comparar Guillermin com nenhum dos dois, mas sempre guardei, escondida num nicho lá no meu inconsciente, uma boa lembrança de P.J. Guillermin havia feito A Maior Aventura de Tarzan, com Gordon Scott (e Sean Connery como vilão) e, depois, tentara mudar o tom, com filmes intelectualmente mais ambiciosos, senão melhores, como Nasce Uma Mulher (Rupture) e O Crepúsculo das Águias, este último já com George Peppard e com espetaculares cenas aéreas de combates durante a 1ª Grande Guerra. Uma Nova Cara no Inferno se beneficiou das mudanças de comportamentos que, na chamada ‘década que mudou tudo’, levaram ao arquivamento do Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência na produção de Hollywood. O filme tem uma morte no metrô que é uma das coisas mais impressionantes de que me lembro. Tem também uma cena em que Peppard vai a uma boate gay. Guillermin conseguiu fazer, no fim dos anos 60, o que Otto Preminger ainda não pudera, ao abordar, pioneiramente, o tema (e o ambiente), em Tempestade sobre Washington, de 1962. Peppard, aliás, P.J., provoca, com seu riso sardônico, os freqüentadores do estabelecimento, incluindo um cara que tem um anel enorme. A cena vira a maior pauleira, com o grupo todo se unindo contra ele e termina com o herói com a cara rebentada pelos golpes recebidos com o tal anel. Êta, brutalidade. Uma Nova Cara não é um filme que tenha uma grande reputação na história do cinema, mas é daqueles que eu gostaria de rever. Alguma coisa se passava em Hollywood e Guillermin pôde aproveitá-la. Muito interessante. E pensar que toda essa conversa começou com uma exposição de fotos sobre a UNE, no saguão de um teatro que exibia uma peça de Pinter…