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Luiz Carlos Merten

21 Agosto 2008 | 15h38

Nos anos 70, trabalhei durante um breve período na TV Gaúcha, de Porto Alegre, fazendo o quadro local do ‘Fantástico’, que nem sei se ainda existe na programação dominical da RBS. Fiz uns três ou quatro programas e de dois deles eu me orgulho muito. Foram minhas únicas experiências audiovisuais e talvez nem tenham saído tão boas, mas o conceito dos programas era bárbaro (no sentido de bom). Era uma fase em que eu andava muito pela noite de Porto e me impressionava porque todas as noites o centro da cidade era lavado de madrugada. Vocês podem imaginar o que isso significava para os sem-teto que eram ‘acordados’ e varridos por aquela enxurrada de água. Fiz o programa em cima disso e imagino que devam ter me achado louco, porque não tinha nada a ver com o que o ‘Fantástico’ costuma celebrar. O outro era sobre Cyro Martins, numa época em que ele estava completando 70 anos. Lembro-me de que Erico Verissimo morreu pouco antes de completar 70 anos e isso foi um trauma para o Rio Grande, que não pôde festejar a data redonda de seu maior escritor. Logo em seguida vieram os 70 anos de Mário Quintana e Cyro Martins e as datas foram muito festejadas. Cyro, dublê de psicanalista e escritor, é autor de uma obra importante sobre as mudanças que resultaram na sua trilogia do gaúcho a pé, formada pelos livros ‘Sem Rumo’, ‘Porteira Fechada’ e ‘Estrada Nova’. As mudanças na sociedade agro-pastoril do Sul expulsaram contingentes de gaúchos, que tiveram de abandonar o campo para viver como excluídos (ou marginalizados) na cidade grande. Cyro Martins termina ‘Estrada Nova’ com o processo de conscientização de um desses gaúchos, que vê avançar pela estrada um futuro de esperança, anunciando novos tempos, coisa de esquerdista romântico. Esse final, que eu li muito tempo depois de ter visto ‘Rocco e Seus Irmãos’, me lembrou o desfecho do clássico de Visconti, quando Ciro diz a Lucca que ele um dioa voltará ao paese, de onde a família Parondi teve de fugir. Me lembrou também, pelo movimento feito literatura, o parágrafo final de ‘Cem Anos de Solidão’, que Gabriel García Márquez escreveu depois, em que as páginas relatando a história da família Buendía vão se sucedendo com vertiginosa rapidez no imaginário do narrador. Sempre achei que a trilogia do gaúcho a pé daria um belo filme, ou uma bela sucessão de filmes, mas eles nunca foram feitos. Quando entrevistei Cyro Martins para o ‘Fantástico’, ele vivia num apartamento de luxo numa praça próxima ao Colégio Bom Conselho, em Porto. Era um homem bem sucedido, jovial e simpático, mas quando lhe pedi que lesse o final de ‘Estrada Nova’ Cyro se empolgou e ali, naquele momento, me dei conta de que ele também era um gaúcho a pé, não um excluído social, mas com certeza um homem desenraizado como seus personagens. Por que estou lembrado tudo isso? Porque recebi um e-mail de Maria Helena Martins, filha de Cyro e dra. em Teoria Literária e Literatura Comparada, na USP. Conheço Maria Helena desde o final dos anos 60, quando trabalhei, com Tuio Becker e José Onofre, no departamento de audiovisual do Colégio Israelita-Brasileiro, uma criação do professor Ruy Carlos Ostermann para dar suporte a atividades didáticas na escola. Maria Helena era professora no CIB. No e-mail, ela me convida – e pede que divulgue – o evento que ocorre amanhã no Memorial da América Latina. Neste mês de agosto comemora-se o centenário de nascimento de Cyro Martins. Às 17 horas, a própria Maria Helena vai abrir a comemoração em São Paulo, chamando para uma mesa-redonda sobre o Cyro escritor. Às 19 horas, outra mesa-redonda vai debater o humanismo do médico, do psicanalista Cyro Martins. E, às 21 horas, haverá um recital com composições de Chiquinha Gonzaga, Fanny Mendelssohn-Hensel e Cécile Chaminacle com o trio formado por Olinda Alessandrini (piano), Inge Schmied-Volkman (cello) e Hella Frank (violino). Para maiores informações você pode entrar no site (www.celpcyro.org.br) do Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins, mas o que eu gostaria mesmo é de recomendar que lessem esse grande autor gaúcho.