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Luiz Carlos Merten

22 Junho 2007 | 09h46

Fui ler os comentários de ontem e encontrei os do Régis e do Carlos Pereira sobre Somerset Maugham. Eles falam de Bette Davis em A Carta, de Clifton Webb, que tem um papel importante em O Fio da Navalha, a versão de Edmund Goulding, e é genial como o Waldo Lydecker de Laura, a obra-prima noir de Otto Preminger. Uma das coisas boas do blog é isso. O circuito exibidor prende a gente a todos esses filmes de grande consumo, que podem ser mais ou menos divertido, mas e a arte, onde fica? No blog, tenho essa possibilidade de viajar com vocês, na imaginação e na escrita, revisitando filmes que são fundamentais, ou foram na minha vida, tanto quanto um filme pode ser fundamental na vida de uma pessoa que vive disso, pensa nisso, mas tem outros interesses – eu tenho, claro. A Carta! Me lembro a comoção que foi em Porto Alegre quando estreou O Colecionador, de William Wyler . Houve réplica e tréplica. Hélio Nascimento e Jefferson viram o mesmo filme de pontos diametralmente opostos, foi uma discussão que poucos filmes animaram, e mais ainda em Porto, 40 anos atrás. Eu era garoto, acompanhava pelos jornais. Wyler pertence a uma geração de clássicos do cinema americano. O grande Moniz Vianna o colocava no mesmo panteão reservado a George Stevens. Descobri mais tarde que havia uma diferença de método muito grande entre eles. Stevens filmava seus planos, um simples beijo, o mais banal dos diálogos, de diferentes ângulos e depois se enfurnava na sala de montagem buscando as melhores combinações entre o fartíssimo material à sua disposição. Cahiers du Cinéma, que nunca teve muito apreço por ele, dizia que era a prova da ausência de mise-en-scène no trabalho dele. Era um técnico habilidoso, não um autor, mas isso não é verdade – Um Lugar ao Sol, Os Brutos também Amam e Assim Caminha a Humanidasde formam um bloco de rara coerência estética (e ética, humana e social), que justifica a inclusão de Stevens no panteão de Moniz Vianna. E Wyler? André Bazin era louco pelo uso que ele fazia da profundidade de campo, dizendo que, por meio dela, Wyler deixava os espectadores à vontade para fazerem, os próprios cortes mentais, enquanto assistiam aos filmes. O espectador fazendo seus cortes! Hoje em dia, o cinemão espera que – e estimula para que – o espectador seja preguiçoso e receba o filme mastigado. Primaríssimas reações de causa/efeito estão acabando com a imaginação no cinema. Acho maravilhosa uma história que o Sérgio Augusto contou, num texto antigo. Por volta de 1960, a nouvelle vague ditava as cartas em todo o mundo e Wyler fez imprimir em seus cartões – ancienne vague, a velha onda. Não sei se vocês sabem, mas Wyler nasceu na França e manteve sempre uma relação vigorosa com o país. Mas, sob múltiplos aspectos, ele era o reverso dos diretores da nouvelle vague. Jean-Luc Godard, influenciado por Rossellini, praticava o que Glauber conceituou – uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Wyler, não. Sua preferência era por histórias de fundo psicológico, desenvolvidas por meio de roteiros sólidos, mas o segredo estava na mise-en-scène – e no elenco! Os três filmes que Wyler fez com Bette Davis (uma trilogia?) são verdadeiros marcos na arte da representação e histórias de uma intensidade que mantêm o espectador elétrico. Jezebel, A Carta e Pérfida são elegantemente teatrais e exibem um virtuosismo cênico que passa pela fotografia em preto-e-branco e pela direção de arte, com aquelas imponemntes escadarias que ele distribuiu por vários de seus filmes, de A Carta a Ben-Hur. Wyler era chamado de estilista sem estilo. Paro por aqui. O post está longo e vão me acusar de saudosista. Não é saudosismo. É apenas reconhecimento a um artista sobre o qual, eu próprio, tinha dúvidas no passado.